quarta-feira, julho 18, 2007

MenteQueVives - Gira-discos

O velho gira-discos ainda toca. Toca nos corações fervidos que percorrem outra vez os corredores de sangue, cada um sempre no sentido de um outro que o saiba segurar.
A música ainda é a mesma e as luzes também. O chão é outro e as mobílias também. Mas só se notam as diferenças se a agulha tremer. Nem vale a pena pensar nisso, nem no mundo novo lá fora. A agulha está firme e cheia de vontade de voar, sem largar o seu chão, onde percorre tantos caminhos quantos os sonhos de cada coração.

Miguel Alves

quinta-feira, julho 05, 2007

MenteQueSentes - Lambedela

Toquei o sino
e disse-lhe:
“Lambe
lambe com teu pêndulo
o dedal dos momentos.
Lambe
lambe e sacode as vestes e as atitudes
lambe e suga o tempo
fá-lo espevitar esta gente.
Lambe e lambe
sente o tlim tlim
de bicicletas em fuga
o tchim tchim
das bebedeiras fáceis
o tchoque tchoque
de saltos rasos por instinto
e altos por necessidade
o zzz zzz de melgas e banda desenhada.
Lambe
lambe e leva a esperança
pelo menos uma vez mais longe
do que as tardes de Domingo”.

Miguel Alves

domingo, junho 17, 2007

MenteQueVives - Luz

A luz do sol descia a escadaria como uma serpente a moldar-se a cada vértice. A luz do sol caminhava em redor do casal de namorados como um cão pastor. A luz do sol chamava àrvores, pedras e ecos, como uma criança depois de consumir tempo com um castelo de areia. A luz do sol aspirava do casal de namorados, coisas como o medo de retribuir uma boca sem sabor. A luz do sol fazia ouvir-se como uma orquestra sem uma língua comum mas ainda assim mais próxima do entendimento. A luz do sol só abandonou a escadaria quando das roupas do casal de namorados saltou areia.
Haverão de passar horas, dias, anos, sem que os dois percebam o valor daquela luz. Luz que embora não a levem pelo futuro, será por ela que voltarão aquela mesma escadaria, para recuperar carga perdida, sem que dessa vez seja preciso sacudir a areia.

Miguel Alves

terça-feira, junho 05, 2007

MenteQueSentes - Depois

Recebi há pouco
a visita de um poeta.
Trazia o segredo
da minha próxima maré.
A mensagem
guardei-a no peito
junto ao coração
que também me prometeu
guardar tudo aquilo
que daqui em diante
não tiver explicação.

Miguel Alves

quinta-feira, maio 24, 2007

MenteQueSentes - Antes

Quando chegares
e recortares o ar
os nossos olhos vão amanhecer
como se tudo o que sabemos
fosse um lugar distante
a aguardar o decalque
dos teus passos.

Miguel Alves

domingo, maio 13, 2007

MenteQueVives - Rio

Furava o rio com o rebuliço de imagens que lhe atravessavam a alma.
O barco amparava tudo, com abas de pai, leme de fé e tábuas de ouro. Dava para ver o seu pé, firme, a apontar o caminho a seguir, parecendo ser ele e não a corrente do rio, quem guiava o destino do barco.
O homem com pouca roupa, mas toda justa e arregaçada, lembrava-se de outras correntes daquele mesmo rio. Dias em que passeava nas margens e era dono de pedras, ramos, flores, poças, ausência, fome, futuro. Coisas que podiam ter várias formas mas que para ele era como se nunca mudassem dia após dia. Coisas tão diferentes mas que para ele tinham algo comum. Uma certeza. A de querer encontrar cada uma delas na tarde seguinte para depois de as ver ou sentir, regressar a casa e guardar cada uma numa noite de sonhos. Onde as via a passar, tal como hoje o vi fazer, de rosto erguido e peito abastecido, a levar o barco de visita a um passado que lhe continua a desenhar o leito do rio.

Miguel Alves

quarta-feira, abril 25, 2007

MenteQueSentes - Cravo vermelho

O canivete e as laranjas
o jogo de damas a pôr em causa o BI
e o anel de ouro
antes nela agora aqui.
Se não fosse uma janela fardada
soprar o quente dos corpos
sobre flores ainda hoje cheirosas
e o tempo da fachada quase fechada
não teria permitido, naquele jardim
ser descoberta a ciência
com que hoje olha o neto.

Miguel Alves

terça-feira, abril 24, 2007

MenteQueVives - Bocado verde

Parecia que tinham entornado o mundo para fora daquele bocado verde. Verde calmo, verde quadrado, verde colorido, verde arrumado, verde espaçoso.
Na primeira vez que sentiu estar perto de entrar nele, os seus pés embrulharam-se na linha que o individualizava. Ficou parado e rebuscou cada mancha verde, com um olhar apressado. Tão apressado, que rapidamente lhe voou a absurda vontade de saborear, o infinito daquele espaço. Avançou então. Era dentro dele que devia estar, não havia melhor forma de o absorver. Ouviu flores a rir baixinho, um vento cavalheiro a abrandar e a cumprimentar de chapéu no ar e rosto afável, alguns pássaros ainda, a gorjear pelo ar, como ondas de uma mar aguardado.
Perguntou a si próprio porque não havia fotografado ainda nada. A resposta foi imediata. A máquina só iria fazer passar o mundo lá fora, o que parecia ter sido expulso dali. Mesmo sendo imagens daqueles bocados verdes, a moldura que os ia suportar no mundo fora deles, iria esconder tudo aquilo, que lá dentro parecia não ter fim.
Miguel Alves

quinta-feira, abril 12, 2007

MenteQueProcuras - Velas?

- Porque é que para acender as velas eléctricas das igrejas, não usamos uma pilha em vez da moeda?

terça-feira, abril 03, 2007

MenteQueSentes - Infinito

Três personagens:
A dúvida, o erro, a certeza.
Um padre ainda sem batina
adiando o desejo de alguém.
Um ladrão, alcoólico
esperando o último trago.
Um comboio
ansiando por passar
tantas as vezes
que não o faca roçar nos ramos.
Quem inventou então?
Quem inventou aquela coisa
que as crianças
trazem sempre na mão?

Miguel Alves

terça-feira, março 27, 2007

MenteQueVives - Drive-in

Era noite mas não o suficiente para o fazer esquecer o dia que passara. Tinha fome, e com esse refrão a zumbir, orientou o volante do automóvel na direcção certa, no caso rumo ao restaurante mais próximo.
Parou o automóvel, fez descer o vidro lateral e pasmou.
Ela também, mas ela tinha como disfarçar, estava a trabalhar dentro do restaurante. Entre paredes que ora se prostituiam, ora tinham vontade própria, estava imune a piropos ou flirts, melhor ainda, dominava-os.
Uma brisa entrava pelo carro e contornava a cara dele. Ela tinha voado para algo parecido com os bastidores, saiu e dirigiu-se pouco depois, novamente para a parte da frente, talvez de um palco. Sorriu-lhe, ajeitou uns papeis, que ele logo pensou serem pautas de música. E com um dedilhar feminino contudo firme, tocou uma melodia, e que bem soava aquele piano, mesmo da estrada, mesmo dentro de um carro fora do restaurante.
Acabou a música. Foi novamente aos bastidores para regressar desta vez com outro instrumento. Ele já não ouviu mais nenhuma música. “O seu troco!” – foi o que ouviu. Acordou. Deixou de estar pasmado e foi para casa.
Quem lhe dera ter em casa um piano, para em vez de um saco de papel no lugar do pendura, levar aquela deusa. Aquela mulher que lhe pareceu ser tudo, menos aquilo que os meus próprios olhos viram, sempre que ela se desligava dele, para atender o meu pedido.

Miguel Alves

quarta-feira, março 21, 2007

MenteQueSentes - Poesia?

"Se alguém te perguntar o quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo..."

Mario Quintana

segunda-feira, março 19, 2007

MenteQueSentes - Um corpo à espera

Há um corpo que me espera
na longitude de um desejo
na boca de um poço
onde apenas um balde deambula.

Há um corpo que me espera
nas horas vagas de um desabafo
na frágil jarra
sôfrega por flores
onde uma não morrerá.

Há um corpo que me espera
na imensidão bruta do mundo
na pequeníssima pérola de emoções
onde batem e rebatem relógios
só um está certo.

Miguel Alves

terça-feira, março 13, 2007

MenteQueSentes - Quarenta e duas mais uma

Eram quarenta e três pessoas
a correr.
Quinze à frente
seis a sonhar
vinte e uma seguiam.
Todas queriam alguém
menos uma
que corria também.

Miguel Alves

terça-feira, fevereiro 27, 2007

MenteQueProcuras - Aquecimento global

- Quem é o mais burro no meio disto tudo? O que sabe mas não quer, ou o que quer mas não sabe? Partindo do príncipio (indiscutivel!) que ambos podem!

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

MenteQueVives - Código Binário

Passavam minutos de uma maneira que pareciam não conseguir construir horas. Na face da rapariga, esperta e silenciosa, só os olhos teimavam não dormir. O ecrã do computador receava até pestanejar, com medo do rato que de forma autoritária empurrava para fora dele uma protecção de ecrã. A mão da rapariga parecia, pois, um treinador de boxe, no canto do ringue a incentivar o seu pupilo, que neste caso ganhava assalto após assalto.
Para além de não deixar o ecrã dormitar, era também importante refrescar o serviço de e-mail e não era com pedras de gelo, talvez o gesto se assemelhe mais ao espetar de um palito no bolo ainda no forno. Uma, duas, três, as vezes necessárias para perceber quando estava pronto. E quando estaria pronto o e-mail? A mensagem electrónica que ficou de chegar naquele dia, por aquelas horas.
Um bocejo, um carinho na franja, um esfregar de olho, um clique refrescante e eis que chega a mensagem. Tão longa como as do costume, quase parecia um desenho, tal o amor que atirava aquelas palavras, amontoadas em bandejas digitais. A protecão de ecrã teimava aparecer, e cada vez mais demorava o antídoto a reagir, a mão no rato já não era um sentinela tão fresco, nem precisava, as ordens eram para ceder.
Finalmente a batalha tinha um vencedor. A mão já nem sequer segurava o rato, os olhos já não seguravam o ecrã, o coração já não segurava as lágrimas e um sorriso tão surpreendente, que não há código binário que o faça pular do imenso mundo, que temos para dar e receber.
Miguel Alves