sexta-feira, setembro 28, 2007

MenteQueSentes - Casa de férias

Na partida da casa alugada
ficou a carpete
inutilmente memorizada
ficou a amostra
da primeira cartada.
E ficou a moldura da nossa cómoda
mais pesada
levando-nos agora a pensar
na estrada
que tantas vezes reclamou
para também ela ser fotografada.

Miguel Alves

segunda-feira, setembro 24, 2007

MenteQueVives - Cratera na lua

Havia fumo de uma vida enrolado nos decibéis negros e profundos. Uma vida que não era dele e que não queria que fosse dele. Tudo aquilo que saía de cada corpo se confundia com vidas. Vidas inteiras projectadas como o fumo daquele angustiante cigarro que o rodeava no momento que o vi e agarrei todo cenário. Óculos escuros desnecessários, tatuagens tão falsas quanto verdadeiras, gestos gritantes abafados por nenhuma vontade em os entender.
Vidas inteiras despejadas na noite, de dentro de uma cratera na lua, cubo de cimento onde pessoas davam pernas a livros, centenas de livros por encadernar.

Miguel Alves

quarta-feira, agosto 22, 2007

segunda-feira, agosto 13, 2007

MenteQueSentes - Os teus olhos

O meu brilho é culpa dos teus olhos
que quando choram fazem parar a queda do sol sobre o mar
que quando sorriem acompanham a lua na volta de uma vida
que quando olham fazem o cheiro das flores ter imaginação
duplicando o seu desejo de chegar a alguém!

Miguel Alves

quinta-feira, agosto 09, 2007

MenteQueSentes - Mudar

Mudar porque preciso
encontrar num dia que ainda não vivi
o abraço que se perdeu.
Mudar para não esquecer
sem querer perder o que ouvi
e me fez cantar.
Mudar porque preciso
tenho ainda luz
tenho outra mão
que se segura na minha estrada
e os dias que faltam
têm de ter uma história para contar.

Miguel Alves

quarta-feira, julho 18, 2007

MenteQueVives - Gira-discos

O velho gira-discos ainda toca. Toca nos corações fervidos que percorrem outra vez os corredores de sangue, cada um sempre no sentido de um outro que o saiba segurar.
A música ainda é a mesma e as luzes também. O chão é outro e as mobílias também. Mas só se notam as diferenças se a agulha tremer. Nem vale a pena pensar nisso, nem no mundo novo lá fora. A agulha está firme e cheia de vontade de voar, sem largar o seu chão, onde percorre tantos caminhos quantos os sonhos de cada coração.

Miguel Alves

quinta-feira, julho 05, 2007

MenteQueSentes - Lambedela

Toquei o sino
e disse-lhe:
“Lambe
lambe com teu pêndulo
o dedal dos momentos.
Lambe
lambe e sacode as vestes e as atitudes
lambe e suga o tempo
fá-lo espevitar esta gente.
Lambe e lambe
sente o tlim tlim
de bicicletas em fuga
o tchim tchim
das bebedeiras fáceis
o tchoque tchoque
de saltos rasos por instinto
e altos por necessidade
o zzz zzz de melgas e banda desenhada.
Lambe
lambe e leva a esperança
pelo menos uma vez mais longe
do que as tardes de Domingo”.

Miguel Alves

domingo, junho 17, 2007

MenteQueVives - Luz

A luz do sol descia a escadaria como uma serpente a moldar-se a cada vértice. A luz do sol caminhava em redor do casal de namorados como um cão pastor. A luz do sol chamava àrvores, pedras e ecos, como uma criança depois de consumir tempo com um castelo de areia. A luz do sol aspirava do casal de namorados, coisas como o medo de retribuir uma boca sem sabor. A luz do sol fazia ouvir-se como uma orquestra sem uma língua comum mas ainda assim mais próxima do entendimento. A luz do sol só abandonou a escadaria quando das roupas do casal de namorados saltou areia.
Haverão de passar horas, dias, anos, sem que os dois percebam o valor daquela luz. Luz que embora não a levem pelo futuro, será por ela que voltarão aquela mesma escadaria, para recuperar carga perdida, sem que dessa vez seja preciso sacudir a areia.

Miguel Alves

terça-feira, junho 05, 2007

MenteQueSentes - Depois

Recebi há pouco
a visita de um poeta.
Trazia o segredo
da minha próxima maré.
A mensagem
guardei-a no peito
junto ao coração
que também me prometeu
guardar tudo aquilo
que daqui em diante
não tiver explicação.

Miguel Alves

quinta-feira, maio 24, 2007

MenteQueSentes - Antes

Quando chegares
e recortares o ar
os nossos olhos vão amanhecer
como se tudo o que sabemos
fosse um lugar distante
a aguardar o decalque
dos teus passos.

Miguel Alves

domingo, maio 13, 2007

MenteQueVives - Rio

Furava o rio com o rebuliço de imagens que lhe atravessavam a alma.
O barco amparava tudo, com abas de pai, leme de fé e tábuas de ouro. Dava para ver o seu pé, firme, a apontar o caminho a seguir, parecendo ser ele e não a corrente do rio, quem guiava o destino do barco.
O homem com pouca roupa, mas toda justa e arregaçada, lembrava-se de outras correntes daquele mesmo rio. Dias em que passeava nas margens e era dono de pedras, ramos, flores, poças, ausência, fome, futuro. Coisas que podiam ter várias formas mas que para ele era como se nunca mudassem dia após dia. Coisas tão diferentes mas que para ele tinham algo comum. Uma certeza. A de querer encontrar cada uma delas na tarde seguinte para depois de as ver ou sentir, regressar a casa e guardar cada uma numa noite de sonhos. Onde as via a passar, tal como hoje o vi fazer, de rosto erguido e peito abastecido, a levar o barco de visita a um passado que lhe continua a desenhar o leito do rio.

Miguel Alves

quarta-feira, abril 25, 2007

MenteQueSentes - Cravo vermelho

O canivete e as laranjas
o jogo de damas a pôr em causa o BI
e o anel de ouro
antes nela agora aqui.
Se não fosse uma janela fardada
soprar o quente dos corpos
sobre flores ainda hoje cheirosas
e o tempo da fachada quase fechada
não teria permitido, naquele jardim
ser descoberta a ciência
com que hoje olha o neto.

Miguel Alves

terça-feira, abril 24, 2007

MenteQueVives - Bocado verde

Parecia que tinham entornado o mundo para fora daquele bocado verde. Verde calmo, verde quadrado, verde colorido, verde arrumado, verde espaçoso.
Na primeira vez que sentiu estar perto de entrar nele, os seus pés embrulharam-se na linha que o individualizava. Ficou parado e rebuscou cada mancha verde, com um olhar apressado. Tão apressado, que rapidamente lhe voou a absurda vontade de saborear, o infinito daquele espaço. Avançou então. Era dentro dele que devia estar, não havia melhor forma de o absorver. Ouviu flores a rir baixinho, um vento cavalheiro a abrandar e a cumprimentar de chapéu no ar e rosto afável, alguns pássaros ainda, a gorjear pelo ar, como ondas de uma mar aguardado.
Perguntou a si próprio porque não havia fotografado ainda nada. A resposta foi imediata. A máquina só iria fazer passar o mundo lá fora, o que parecia ter sido expulso dali. Mesmo sendo imagens daqueles bocados verdes, a moldura que os ia suportar no mundo fora deles, iria esconder tudo aquilo, que lá dentro parecia não ter fim.
Miguel Alves

quinta-feira, abril 12, 2007

MenteQueProcuras - Velas?

- Porque é que para acender as velas eléctricas das igrejas, não usamos uma pilha em vez da moeda?

terça-feira, abril 03, 2007

MenteQueSentes - Infinito

Três personagens:
A dúvida, o erro, a certeza.
Um padre ainda sem batina
adiando o desejo de alguém.
Um ladrão, alcoólico
esperando o último trago.
Um comboio
ansiando por passar
tantas as vezes
que não o faca roçar nos ramos.
Quem inventou então?
Quem inventou aquela coisa
que as crianças
trazem sempre na mão?

Miguel Alves