quinta-feira, fevereiro 22, 2007

MenteQueVives - Código Binário

Passavam minutos de uma maneira que pareciam não conseguir construir horas. Na face da rapariga, esperta e silenciosa, só os olhos teimavam não dormir. O ecrã do computador receava até pestanejar, com medo do rato que de forma autoritária empurrava para fora dele uma protecção de ecrã. A mão da rapariga parecia, pois, um treinador de boxe, no canto do ringue a incentivar o seu pupilo, que neste caso ganhava assalto após assalto.
Para além de não deixar o ecrã dormitar, era também importante refrescar o serviço de e-mail e não era com pedras de gelo, talvez o gesto se assemelhe mais ao espetar de um palito no bolo ainda no forno. Uma, duas, três, as vezes necessárias para perceber quando estava pronto. E quando estaria pronto o e-mail? A mensagem electrónica que ficou de chegar naquele dia, por aquelas horas.
Um bocejo, um carinho na franja, um esfregar de olho, um clique refrescante e eis que chega a mensagem. Tão longa como as do costume, quase parecia um desenho, tal o amor que atirava aquelas palavras, amontoadas em bandejas digitais. A protecão de ecrã teimava aparecer, e cada vez mais demorava o antídoto a reagir, a mão no rato já não era um sentinela tão fresco, nem precisava, as ordens eram para ceder.
Finalmente a batalha tinha um vencedor. A mão já nem sequer segurava o rato, os olhos já não seguravam o ecrã, o coração já não segurava as lágrimas e um sorriso tão surpreendente, que não há código binário que o faça pular do imenso mundo, que temos para dar e receber.
Miguel Alves

1 comentário:

Isabella disse...

Li e imediatamente imaginei o quadro todo à minha frente!
Parabéns!