sábado, março 31, 2012

MenteQueSentes - Dez passos

Um, dois, três passos
na direcção de uma outra morada
na sequência das pedras
por cima de outros caminhos.

Quatro, cinco, seis passos
a confirmar os três primeiros
a precipitar um novo rasto
e não há verbo que me faça parar.

Sete, oito, nove passos
se houvessem dúvidas, estaria descalço
sem fraquezas não há escusas
e foi assim que sai de casa.

Dez passos
cheguei e renasci.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

MenteQueVives - O sorriso que se passa

A mais velha baixou-se para ver melhor o caderno aberto pela mais nova. Não percebi se o sorriso da mais velha era de ternura pela resposta fácil que teria. Ou se era para dar confiança a uma dúvida, multiplicada pelas borbulhas no rosto da mais nova.
Não cheguei a perceber, porque entretanto terminei de contornar a rotunda. Mais uma a caminho de qualquer coisa.
Mas foi fácil imaginar as borbulhas a desaparecerem, quando junto dos colegas o caderno foi novamente aberto. E entre a explicação de tudo, apareceu para sempre, o sorriso da mais velha na boca da mais nova.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

MenteQueSentes - Pinheiro

Entra, desvia-te do pinheiro mas não o ignores.
Senta-te.
Se não perceberes a letra das músicas, ouve pelos menos os sinos.
Imagina uma noite branca, onde a família passeia por ela,
chegando mesmo a parecerem violentas as marcas dos seus passos.
Mas não o são, de todo.
São gestos de cheios de certezas.
Amanhã cada um leva para casa um embrulho
que se vai partilhando durante todo o ano.
À medida que se aproxima o próximo Natal
ainda é no frio que se fala e por telefone.
O calor vem depois e fica espalhado pelo pinheiro.
Esse mesmo que quase pisavas.



quarta-feira, dezembro 21, 2011

MenteQueSentes - A cor que vejo

O vermelho que trazes
explode em mim
e na contestação que gera
os meus sentidos acabam rendidos
e tornam o meu sangue daltónico.
Para o bem
prefiro trocar tudo e viver o sonho.

domingo, novembro 13, 2011

MenteQueSentes - Daqui

Daqui
assim
pareces o meu mundo
e metade
de outra coisa qualquer

MenteQueSentes - Vidas por comprar

Nas lojas onde entro
há sempre alguém que me faz falta.
Não que queira levá-las comigo
mas ganhei o hábito de pensar
nas vidas que não vou comprar.

sexta-feira, novembro 04, 2011

MenteQueSentes - Borboletas

As borboletas no estômago
são os teus sorrisos de criança
a lembrar o resto do corpo
que há amor, que há esperança

e se uma delas te fugir
não a chames, não a censures
foi o impulso de quem te quer sentir

quem a ensinou a sonhar

mas só a sonhar

só a sonhar

ainda que tudo seja verdadeiro.

quinta-feira, novembro 03, 2011

MenteQueSentes - Aquelas coisas

Há coisas que me ensinaste
que vão ficar só para mim.
Sei que vão mastigar-me,
engolir-me, engordar-me.
Mas vão ser aquelas coisas
que garantem
um lugar para chegar.

quinta-feira, outubro 27, 2011

MenteQueSentes - Lista de Supermercado

Em falta:
cereais com sabor a mar, para o teu acordar de destino livre e grandioso
doce de frutas enamoradas, para ajudar a manter o sorriso que nos une
pão de forma sem forma, vamos continuar a deixar todos os contornos de lado
sumo 100% magicados, para acompanhar as nossas conversas de balão
gel de banho com o cheiro de amanhã, assim prolongamos o aroma que deixamos à despedida
vinho de castas virgens, porque cada brinde nosso é único
manta de tecido vistoso, para não se perder nos teus ombros
incenso consumido, nós saberemos como ateá-lo.

quinta-feira, setembro 29, 2011

MenteQueSentes - Silêncio

Descobri que o silêncio às vezes é bandeira, às vezes é vento e às vezes é o lugar onde ficou por colocar o mastro.
E descobri também, que só o devo partilhar, com quem conhece as cores dos meus ideais, da minha nação.

quarta-feira, julho 20, 2011

MenteQueSentes - Fado no centro comercial

Houve fado no centro comercial.
E aquele som
que solta a definição
dos olhares
não podia estar noutro sítio melhor
para nos ajudar a distinguir
quem sente os momentos
de quem os contabiliza.

sexta-feira, julho 08, 2011

MenteQueSentes - Ida e volta

Eu parto à vontade
sei que a língua que falo
se fala por aí
que o tempo que levo
me vai trazer de volta
e na procura que encontrei
tudo começa em mim.

sábado, maio 14, 2011

MenteQueSentes - Piscina, Lda

Há uma piscina onde nadamos
mas não mandamos

onde o vil da água

é quase transparente.

Salpicam dores quando saímos

e resistem vozes quando teimamos

tocar no fundo

sem a promessa de voltarmos.

terça-feira, abril 05, 2011

MenteQueVives - Música no Aeroporto

O homem largou os dedos nas cordas da guitarra e juntos assumiram o destino das viagens. E os dedos gravaram tudo. A sangue frio cortaram os pensamentos de todos. A música irradiou pelas janelas absortas, pelo chão submisso, pelo ar extasiado, pelas portas. Pelas portas que não abriam, pelas portas que se fechavam, pelas portas que não existam mas faziam as pessoas recuar.

Foi admirável ver o incómodo de quem não pediu música. Foi admirável ver o ódio de quem naquele momento não queria sonhar. De quem nunca está preparado e traz aquelas roupas que só vestem em público.

Ri-me tanto. Tanto que tive de parar de dançar. Sentei-me no chão e deixei-te só a ti a rodopiar e a desafiar os hábitos.

Quando os dedos do homem pararam, a guitarra olhou para ti. Foram os ciúmes mais cruéis que alguma vez tive.

domingo, fevereiro 13, 2011

MenteQueSentes - No Guns can kill

Shoot


with your fingers


Cry

(only)
through your heart

Pray


like you have no religion


Die


as if you had a gun

quarta-feira, novembro 10, 2010

MenteQueVives - O miúdo do comboio

A marcha do comboio não enganava. Seguia em frente. Avançava.
Levava gente dentro. Alguém parecendo não estar satisfeito, caminhava. Seguia em frente. Avançava. E fazia-o para lá e para cá. Como se o limite de cada ponta do comboio fosse o inicio de mais uma caminhada.
Nas horas que durou a viagem não o vi cruzar olhares com ninguém. Fitava qualquer coisa dentro ou fora dele. E caminhava. Seguia em frente. Avançava.
Confesso que de ínicio me aborreceu. A mim e percebi que a todos os que se mantinham sentados. A seguir em frente. A avançar.
Desisti do desconforto assim que percebi a imunidade dele. Ele podia fazer aquilo. Talvez até devesse mesmo fazê-lo. Era miúdo e podia. Era miúdo e devia.
Devia seguir em frente. Devia avançar. Mesmo dentro do comboio e este a fazê-lo também.
Mesmo quando tinha de inverter a marcha parecendo voltar para trás, o comboio seguia em frente. Avançava. E ele também. Iludido, seguia em frente. Avançava.

sexta-feira, novembro 05, 2010

MenteQueVives - Cinema vagabundo

Quis ir ao cinema. Mesmo que para isso lhe bastasse descer um degrau, quis fazer o que os outros fazem. Os outros que não precisam descer o degrau. Os que descem na horizontal falsa do elevador.
Então antes de se mexer para o cinema, encostou bem o cabelo ao crânio, tirou um cachecol do saco de plástico e deixou no mármore a cama pronta até ao regresso.
Desceu o degrau.
Sentou-se novamente e esperou o ínicio do filme. E o filme iniciou-se tantas vezes que lhes perdeu a conta. Havia prémios a serem atribuidos aos actores e actrizes logo após as primeiras cenas. Ninguém mudava o guarda roupa. Ninguém tinha decorado os textos.
E ele pensou que chegava de sonhar com a vida real. Voltou a subir o degrau e realizou o seu filme. E para isso muito contribuiram, as letras das folhas de jornal que o cobriam.

quarta-feira, outubro 27, 2010

MenteQueVives - Na pose do dia

O dia dava sinais de dormência.
Fazia aquela pose, que julgo muitas vezes, fazer parar o tempo para que possa ser admirado.
O Sol destacava-se do cenário e fazia com que o rio empurrasse a luz dela contra ele.
A água fluía. E os olhares deles também. Pássaros voavam. E os pensamentos deles também.
Haviam passos a fazer-se ouvir. E os gestos deles escutavam.
À parte dos copos vazios, naquela mesa tudo transbordava alguma coisa.
E tudo havia por dentro. E tudo se criava por fora.

terça-feira, outubro 05, 2010

MenteQueSentes - Quando volto

Volto

quando falo contigo
e nao te vejo

quando reajo tarde
ao que me dizes

quando perco tudo
para pensar em cores

quando solto alguém
que não sobrevive
ao tom de voz
em falta
quando só tentas aparecer.