terça-feira, março 27, 2007

MenteQueVives - Drive-in

Era noite mas não o suficiente para o fazer esquecer o dia que passara. Tinha fome, e com esse refrão a zumbir, orientou o volante do automóvel na direcção certa, no caso rumo ao restaurante mais próximo.
Parou o automóvel, fez descer o vidro lateral e pasmou.
Ela também, mas ela tinha como disfarçar, estava a trabalhar dentro do restaurante. Entre paredes que ora se prostituiam, ora tinham vontade própria, estava imune a piropos ou flirts, melhor ainda, dominava-os.
Uma brisa entrava pelo carro e contornava a cara dele. Ela tinha voado para algo parecido com os bastidores, saiu e dirigiu-se pouco depois, novamente para a parte da frente, talvez de um palco. Sorriu-lhe, ajeitou uns papeis, que ele logo pensou serem pautas de música. E com um dedilhar feminino contudo firme, tocou uma melodia, e que bem soava aquele piano, mesmo da estrada, mesmo dentro de um carro fora do restaurante.
Acabou a música. Foi novamente aos bastidores para regressar desta vez com outro instrumento. Ele já não ouviu mais nenhuma música. “O seu troco!” – foi o que ouviu. Acordou. Deixou de estar pasmado e foi para casa.
Quem lhe dera ter em casa um piano, para em vez de um saco de papel no lugar do pendura, levar aquela deusa. Aquela mulher que lhe pareceu ser tudo, menos aquilo que os meus próprios olhos viram, sempre que ela se desligava dele, para atender o meu pedido.

Miguel Alves

quarta-feira, março 21, 2007

MenteQueSentes - Poesia?

"Se alguém te perguntar o quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo..."

Mario Quintana

segunda-feira, março 19, 2007

MenteQueSentes - Um corpo à espera

Há um corpo que me espera
na longitude de um desejo
na boca de um poço
onde apenas um balde deambula.

Há um corpo que me espera
nas horas vagas de um desabafo
na frágil jarra
sôfrega por flores
onde uma não morrerá.

Há um corpo que me espera
na imensidão bruta do mundo
na pequeníssima pérola de emoções
onde batem e rebatem relógios
só um está certo.

Miguel Alves

terça-feira, março 13, 2007

MenteQueSentes - Quarenta e duas mais uma

Eram quarenta e três pessoas
a correr.
Quinze à frente
seis a sonhar
vinte e uma seguiam.
Todas queriam alguém
menos uma
que corria também.

Miguel Alves

terça-feira, fevereiro 27, 2007

MenteQueProcuras - Aquecimento global

- Quem é o mais burro no meio disto tudo? O que sabe mas não quer, ou o que quer mas não sabe? Partindo do príncipio (indiscutivel!) que ambos podem!

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

MenteQueVives - Código Binário

Passavam minutos de uma maneira que pareciam não conseguir construir horas. Na face da rapariga, esperta e silenciosa, só os olhos teimavam não dormir. O ecrã do computador receava até pestanejar, com medo do rato que de forma autoritária empurrava para fora dele uma protecção de ecrã. A mão da rapariga parecia, pois, um treinador de boxe, no canto do ringue a incentivar o seu pupilo, que neste caso ganhava assalto após assalto.
Para além de não deixar o ecrã dormitar, era também importante refrescar o serviço de e-mail e não era com pedras de gelo, talvez o gesto se assemelhe mais ao espetar de um palito no bolo ainda no forno. Uma, duas, três, as vezes necessárias para perceber quando estava pronto. E quando estaria pronto o e-mail? A mensagem electrónica que ficou de chegar naquele dia, por aquelas horas.
Um bocejo, um carinho na franja, um esfregar de olho, um clique refrescante e eis que chega a mensagem. Tão longa como as do costume, quase parecia um desenho, tal o amor que atirava aquelas palavras, amontoadas em bandejas digitais. A protecão de ecrã teimava aparecer, e cada vez mais demorava o antídoto a reagir, a mão no rato já não era um sentinela tão fresco, nem precisava, as ordens eram para ceder.
Finalmente a batalha tinha um vencedor. A mão já nem sequer segurava o rato, os olhos já não seguravam o ecrã, o coração já não segurava as lágrimas e um sorriso tão surpreendente, que não há código binário que o faça pular do imenso mundo, que temos para dar e receber.
Miguel Alves

domingo, fevereiro 11, 2007

MenteQueSentes - Nascentes

Toca o branco.
Desliza os dedos no branco analfabeto.
Agora retoca o silêncio
preenche nele as lacunas várias
que no seu apogeu
são inversas às palavras contrárias.
O único sentido comum
entre a cor infiel
e o prazer despercebido
vulgos branco e silêncio
são conotações
corroboradas nas urgências
de hospitais parcos em sensações.

Miguel Alves

terça-feira, janeiro 30, 2007

MenteQueSentes - Verbo

Deixa que a minha mão
te desenhe um mundo
e se algum dos meus dedos
não te chamar
mostra-lhe como fazes um verbo
num momento
em que muitos
usariam um carimbo.

Miguel Alves

domingo, janeiro 28, 2007

quinta-feira, janeiro 25, 2007

MenteQueVives - Escola

Para ele a casa era grande como a noite mas não tão assustadora. Deixava-o sem a mão do seu farol mas não o fazia tremer como quando debaixo dos lençóis, se escondia do escuro destapado.
A escola nunca o fez voltar para trás mas também não o puxava como a terra áspera da rua onde morava. Nele ainda não era nada, aquela voz que todos os dias dava copos de água a crianças com sede de mar, aquele sino, ora sorridente, ora casmurro, aquele leite achocolatado que não tinha prioridade no campo de futebol improvisado ou até mesmo o colega do lado sempre pronto a emprestar a borracha, sem que isso apagasse depois a marca de uma pedra submissa.
Ainda não era nada a escola naquele corpo de tamanho horário, com sonhos tão espessos que anos depois ainda lhe irão fazer dar passos, mesmo quando o tamanho dessa erosão, se revelar pelo branco que carrega.

Miguel Alves

quinta-feira, janeiro 18, 2007

MenteQueProcuras - Ouvir ou Falar?

- O que apareceu primeiro? O acto de ouvir ou o de falar? É que em algumas coisas a antiguidade devia prevalecer, não?

segunda-feira, janeiro 15, 2007

MenteQueVives - Sombra

Passava o tempo amarrada ao chão, com o cabelo solto e perfumado.
A sua sombra a proteger beijos, era a sua alma, aquilo que usamos sem ver as marcas que deixamos. E era a sombra que o seu corpo mais invejava. O corpo invejava a sua própria sombra. Não era ela que suportava canivetes a anunciar juras de amor eterno, pés ambiciosos por chegar ao fruto mais apetecido, pedras arremessadas sem sentido como parentes de lágrimas imaturas. Não era a sombra que suportava tudo isto. Mas era por tudo isto que se estendia na relva rasa e muitas vezes seca. Era por tudo isto que se entregava à luz, renunciava à vida que esta trazia e se mantinha estendida como um tapete, à espera de estrelas para a percorrerem de dia e com a noite subirem pelo seu corpo.

Miguel Alves

terça-feira, janeiro 09, 2007

MenteQueSentes - O sonho de Mariana

Sentimento guardado
na casa de um chão
um piso qualquer
coberto por uma multidão
escondido ou quase
deixava a Mariana sonhar
era crespúsculo invertido
ou vontade de amar.
Envergonhado e só
irritava Mariana
sem um único inimigo
esperava uma companhia.
E quando a multidão dormiu
abriu-se uma janela
Mariana acenou
e o sentimento dobrou.

Miguel Alves

terça-feira, janeiro 02, 2007

MenteQueSentes - Escultura de areia

A bravura estava lá
grão a grão
desenhada na areia.
As lâminas musculares
cortavam aquele monte artificial
e faziam o olhar de quem passava
sussurrar ao vento
a energia confidencial
de quem se inverte nas horas normais.

Miguel Alves

terça-feira, dezembro 12, 2006

MenteQueVives - Chave

Os passos acelerados, denunciavam minutos curtos, para um tempo que se confundia com a distância ainda por percorrer.
Sacos de plástico a ocupar as mãos, saia inquieta sobre os joelhos, olhos magnetizados por cada ponto de viragem no caminho. Aquela mulher não andava nem voava, não corria nem deslizava. Fugia!
E não era do que deixava para trás, mas do que enfretaria se não fosse fiel, ao tacho que ficou ao lume e ao filme que ficou de guarda a alguém que ainda confunde desenhos com deveres.
Não há máquina que consiga captar o momento em que abriu a porta, sem dar hipótese aos sacos de pesarem demais em mãos ávidas por raptar a chave.
Poucos passos chegaram para receber um aceno do filme e um piscar de olhos do tacho.
Garantiu a ambos que seria a última vez.
A chave atou a porta à parede e guardou mais uma vez toda aquela esperança.

Miguel Alves