terça-feira, fevereiro 27, 2007
MenteQueProcuras - Aquecimento global
- Quem é o mais burro no meio disto tudo? O que sabe mas não quer, ou o que quer mas não sabe? Partindo do príncipio (indiscutivel!) que ambos podem!
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
MenteQueVives - Código Binário
Passavam minutos de uma maneira que pareciam não conseguir construir horas. Na face da rapariga, esperta e silenciosa, só os olhos teimavam não dormir. O ecrã do computador receava até pestanejar, com medo do rato que de forma autoritária empurrava para fora dele uma protecção de ecrã. A mão da rapariga parecia, pois, um treinador de boxe, no canto do ringue a incentivar o seu pupilo, que neste caso ganhava assalto após assalto.
Para além de não deixar o ecrã dormitar, era também importante refrescar o serviço de e-mail e não era com pedras de gelo, talvez o gesto se assemelhe mais ao espetar de um palito no bolo ainda no forno. Uma, duas, três, as vezes necessárias para perceber quando estava pronto. E quando estaria pronto o e-mail? A mensagem electrónica que ficou de chegar naquele dia, por aquelas horas.
Um bocejo, um carinho na franja, um esfregar de olho, um clique refrescante e eis que chega a mensagem. Tão longa como as do costume, quase parecia um desenho, tal o amor que atirava aquelas palavras, amontoadas em bandejas digitais. A protecão de ecrã teimava aparecer, e cada vez mais demorava o antídoto a reagir, a mão no rato já não era um sentinela tão fresco, nem precisava, as ordens eram para ceder.
Finalmente a batalha tinha um vencedor. A mão já nem sequer segurava o rato, os olhos já não seguravam o ecrã, o coração já não segurava as lágrimas e um sorriso tão surpreendente, que não há código binário que o faça pular do imenso mundo, que temos para dar e receber.
Para além de não deixar o ecrã dormitar, era também importante refrescar o serviço de e-mail e não era com pedras de gelo, talvez o gesto se assemelhe mais ao espetar de um palito no bolo ainda no forno. Uma, duas, três, as vezes necessárias para perceber quando estava pronto. E quando estaria pronto o e-mail? A mensagem electrónica que ficou de chegar naquele dia, por aquelas horas.
Um bocejo, um carinho na franja, um esfregar de olho, um clique refrescante e eis que chega a mensagem. Tão longa como as do costume, quase parecia um desenho, tal o amor que atirava aquelas palavras, amontoadas em bandejas digitais. A protecão de ecrã teimava aparecer, e cada vez mais demorava o antídoto a reagir, a mão no rato já não era um sentinela tão fresco, nem precisava, as ordens eram para ceder.
Finalmente a batalha tinha um vencedor. A mão já nem sequer segurava o rato, os olhos já não seguravam o ecrã, o coração já não segurava as lágrimas e um sorriso tão surpreendente, que não há código binário que o faça pular do imenso mundo, que temos para dar e receber.
Miguel Alves
domingo, fevereiro 11, 2007
MenteQueSentes - Nascentes
Toca o branco.
Desliza os dedos no branco analfabeto.
Agora retoca o silêncio
preenche nele as lacunas várias
que no seu apogeu
são inversas às palavras contrárias.
O único sentido comum
entre a cor infiel
e o prazer despercebido
vulgos branco e silêncio
são conotações
corroboradas nas urgências
de hospitais parcos em sensações.
Miguel Alves
Desliza os dedos no branco analfabeto.
Agora retoca o silêncio
preenche nele as lacunas várias
que no seu apogeu
são inversas às palavras contrárias.
O único sentido comum
entre a cor infiel
e o prazer despercebido
vulgos branco e silêncio
são conotações
corroboradas nas urgências
de hospitais parcos em sensações.
Miguel Alves
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
terça-feira, janeiro 30, 2007
MenteQueSentes - Verbo
Deixa que a minha mão
te desenhe um mundo
e se algum dos meus dedos
não te chamar
mostra-lhe como fazes um verbo
num momento
em que muitos
usariam um carimbo.
Miguel Alves
te desenhe um mundo
e se algum dos meus dedos
não te chamar
mostra-lhe como fazes um verbo
num momento
em que muitos
usariam um carimbo.
Miguel Alves
domingo, janeiro 28, 2007
quinta-feira, janeiro 25, 2007
MenteQueVives - Escola
Para ele a casa era grande como a noite mas não tão assustadora. Deixava-o sem a mão do seu farol mas não o fazia tremer como quando debaixo dos lençóis, se escondia do escuro destapado.
A escola nunca o fez voltar para trás mas também não o puxava como a terra áspera da rua onde morava. Nele ainda não era nada, aquela voz que todos os dias dava copos de água a crianças com sede de mar, aquele sino, ora sorridente, ora casmurro, aquele leite achocolatado que não tinha prioridade no campo de futebol improvisado ou até mesmo o colega do lado sempre pronto a emprestar a borracha, sem que isso apagasse depois a marca de uma pedra submissa.
Ainda não era nada a escola naquele corpo de tamanho horário, com sonhos tão espessos que anos depois ainda lhe irão fazer dar passos, mesmo quando o tamanho dessa erosão, se revelar pelo branco que carrega.
Miguel Alves
A escola nunca o fez voltar para trás mas também não o puxava como a terra áspera da rua onde morava. Nele ainda não era nada, aquela voz que todos os dias dava copos de água a crianças com sede de mar, aquele sino, ora sorridente, ora casmurro, aquele leite achocolatado que não tinha prioridade no campo de futebol improvisado ou até mesmo o colega do lado sempre pronto a emprestar a borracha, sem que isso apagasse depois a marca de uma pedra submissa.
Ainda não era nada a escola naquele corpo de tamanho horário, com sonhos tão espessos que anos depois ainda lhe irão fazer dar passos, mesmo quando o tamanho dessa erosão, se revelar pelo branco que carrega.
Miguel Alves
sábado, janeiro 20, 2007
quinta-feira, janeiro 18, 2007
MenteQueProcuras - Ouvir ou Falar?
- O que apareceu primeiro? O acto de ouvir ou o de falar? É que em algumas coisas a antiguidade devia prevalecer, não?
segunda-feira, janeiro 15, 2007
MenteQueVives - Sombra
Passava o tempo amarrada ao chão, com o cabelo solto e perfumado.
A sua sombra a proteger beijos, era a sua alma, aquilo que usamos sem ver as marcas que deixamos. E era a sombra que o seu corpo mais invejava. O corpo invejava a sua própria sombra. Não era ela que suportava canivetes a anunciar juras de amor eterno, pés ambiciosos por chegar ao fruto mais apetecido, pedras arremessadas sem sentido como parentes de lágrimas imaturas. Não era a sombra que suportava tudo isto. Mas era por tudo isto que se estendia na relva rasa e muitas vezes seca. Era por tudo isto que se entregava à luz, renunciava à vida que esta trazia e se mantinha estendida como um tapete, à espera de estrelas para a percorrerem de dia e com a noite subirem pelo seu corpo.
Miguel Alves
A sua sombra a proteger beijos, era a sua alma, aquilo que usamos sem ver as marcas que deixamos. E era a sombra que o seu corpo mais invejava. O corpo invejava a sua própria sombra. Não era ela que suportava canivetes a anunciar juras de amor eterno, pés ambiciosos por chegar ao fruto mais apetecido, pedras arremessadas sem sentido como parentes de lágrimas imaturas. Não era a sombra que suportava tudo isto. Mas era por tudo isto que se estendia na relva rasa e muitas vezes seca. Era por tudo isto que se entregava à luz, renunciava à vida que esta trazia e se mantinha estendida como um tapete, à espera de estrelas para a percorrerem de dia e com a noite subirem pelo seu corpo.
Miguel Alves
terça-feira, janeiro 09, 2007
MenteQueSentes - O sonho de Mariana
Sentimento guardado
na casa de um chão
um piso qualquer
coberto por uma multidão
escondido ou quase
deixava a Mariana sonhar
era crespúsculo invertido
ou vontade de amar.
Envergonhado e só
irritava Mariana
sem um único inimigo
esperava uma companhia.
E quando a multidão dormiu
abriu-se uma janela
Mariana acenou
e o sentimento dobrou.
Miguel Alves
na casa de um chão
um piso qualquer
coberto por uma multidão
escondido ou quase
deixava a Mariana sonhar
era crespúsculo invertido
ou vontade de amar.
Envergonhado e só
irritava Mariana
sem um único inimigo
esperava uma companhia.
E quando a multidão dormiu
abriu-se uma janela
Mariana acenou
e o sentimento dobrou.
Miguel Alves
terça-feira, janeiro 02, 2007
MenteQueSentes - Escultura de areia
A bravura estava lá
grão a grão
desenhada na areia.
As lâminas musculares
cortavam aquele monte artificial
e faziam o olhar de quem passava
sussurrar ao vento
a energia confidencial
de quem se inverte nas horas normais.
Miguel Alves
grão a grão
desenhada na areia.
As lâminas musculares
cortavam aquele monte artificial
e faziam o olhar de quem passava
sussurrar ao vento
a energia confidencial
de quem se inverte nas horas normais.
Miguel Alves
segunda-feira, dezembro 18, 2006
terça-feira, dezembro 12, 2006
MenteQueVives - Chave
Os passos acelerados, denunciavam minutos curtos, para um tempo que se confundia com a distância ainda por percorrer.
Sacos de plástico a ocupar as mãos, saia inquieta sobre os joelhos, olhos magnetizados por cada ponto de viragem no caminho. Aquela mulher não andava nem voava, não corria nem deslizava. Fugia!
E não era do que deixava para trás, mas do que enfretaria se não fosse fiel, ao tacho que ficou ao lume e ao filme que ficou de guarda a alguém que ainda confunde desenhos com deveres.
Não há máquina que consiga captar o momento em que abriu a porta, sem dar hipótese aos sacos de pesarem demais em mãos ávidas por raptar a chave.
Poucos passos chegaram para receber um aceno do filme e um piscar de olhos do tacho.
Garantiu a ambos que seria a última vez.
A chave atou a porta à parede e guardou mais uma vez toda aquela esperança.
Miguel Alves
Sacos de plástico a ocupar as mãos, saia inquieta sobre os joelhos, olhos magnetizados por cada ponto de viragem no caminho. Aquela mulher não andava nem voava, não corria nem deslizava. Fugia!
E não era do que deixava para trás, mas do que enfretaria se não fosse fiel, ao tacho que ficou ao lume e ao filme que ficou de guarda a alguém que ainda confunde desenhos com deveres.
Não há máquina que consiga captar o momento em que abriu a porta, sem dar hipótese aos sacos de pesarem demais em mãos ávidas por raptar a chave.
Poucos passos chegaram para receber um aceno do filme e um piscar de olhos do tacho.
Garantiu a ambos que seria a última vez.
A chave atou a porta à parede e guardou mais uma vez toda aquela esperança.
Miguel Alves
segunda-feira, dezembro 04, 2006
MenteQueProcuras - Pancada
- Porque é aquele senhor estava a bater no secador de mãos?
- Porque o secador estava a falhar.
- E com a pancada fica a trabalhar é?
- Porque o secador estava a falhar.
- E com a pancada fica a trabalhar é?
segunda-feira, novembro 27, 2006
MenteQueSentes - Proveta
Nasceu o malabarista.
Aquele que usa o tempo
a seu favor
e faz a ciência rodopiar
mostrando ao mundo
que a vida
não tem salas de espera.
Miguel Alves
Aquele que usa o tempo
a seu favor
e faz a ciência rodopiar
mostrando ao mundo
que a vida
não tem salas de espera.
Miguel Alves
quarta-feira, novembro 22, 2006
terça-feira, novembro 14, 2006
MenteQueVives - Retrovisor
Não era suposto a senhora estar ali. Era uma via rápida. Não só passavam carros como passavam sem perceberem o que deixavam para trás. Estava vestida de negro, um negro fundo onde a luz do Sol se partia e fazia crescer as rugas.
Vi-a porque tive de sair por aquela estrada. Se meu destino não fosse aquele, provavelmente faria como tantos outros, passava sem abrandar, com a vida encaixilhada em cima de um capot. Ia perder o atrevimento com que me acenou.
Não vi se passou a estrada. Não vi se continuou a apertar a mala de mão. Não vi se sorriu ao ver o meu espanto. Não vi se chegou tarde a casa. E também não vi se tinha fotografias escondidas. Tudo o que consegui ver foi uma menina a rodar a saia, com duas tranças a dar-lhe juizo e as mãos nas ancas a chamar a luz do Sol. Mas talvez não tenha sido bem assim, mesmo que o retrovisor nos mostre sempre o que nos persegue.
Migel Alves
Vi-a porque tive de sair por aquela estrada. Se meu destino não fosse aquele, provavelmente faria como tantos outros, passava sem abrandar, com a vida encaixilhada em cima de um capot. Ia perder o atrevimento com que me acenou.
Não vi se passou a estrada. Não vi se continuou a apertar a mala de mão. Não vi se sorriu ao ver o meu espanto. Não vi se chegou tarde a casa. E também não vi se tinha fotografias escondidas. Tudo o que consegui ver foi uma menina a rodar a saia, com duas tranças a dar-lhe juizo e as mãos nas ancas a chamar a luz do Sol. Mas talvez não tenha sido bem assim, mesmo que o retrovisor nos mostre sempre o que nos persegue.
Migel Alves
segunda-feira, novembro 13, 2006
MenteQueSentes - Ó Gente da Minha Terra
(Há dias tão bonitos que a nossa alma merece um fado... assim...)
É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra
Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar
Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi
E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar
Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi
Amália Rodrigues
É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra
Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar
Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi
E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar
Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi
Amália Rodrigues
quinta-feira, novembro 09, 2006
MenteQueVives - Sem espelho
O espelho não estava embaciado. Não pela falta de reacção quimica, mas pelo que não reflectia. O arranhar de lâmina a escanhoar o pelo, era impresso na perfeição como uma lista de compras, desejos. Não estava nú nem podia estar, com tanta pressa em acabar o aprumo matinal.
Mal terminou, interagiu com o resto dos objectos como se fossem mensageiros de uma ausência. O interruptor permaneceu parado, tal como antes de entrar. A única luz era interior e era só sua. Ao contrário da imagem que não lhe pertencia e que nem o espelho lhe podia devolver.
Miguel Alves
Mal terminou, interagiu com o resto dos objectos como se fossem mensageiros de uma ausência. O interruptor permaneceu parado, tal como antes de entrar. A única luz era interior e era só sua. Ao contrário da imagem que não lhe pertencia e que nem o espelho lhe podia devolver.
Miguel Alves
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