sexta-feira, setembro 29, 2006

MenteQueVives - Canhoto (Não há vida que se conte inteira)

Quando se despediu só conseguiu acenar, o rosto não transpirou qualquer sorriso, tal era a preocupação em subir as escadas da carruagem sem soltar o saco para mais uma temporada.
Sentou-se no primeiro lugar vazio que encontrou ao lado da última pessoa que esperava encontrar. Por isso nem tentou mostrar pela janela o sorriso suspenso à entrada.
O rosto do amigo de há anos estava diferente, mas não o suficiente para alterar o desenrolar do diálogo tão característico entre os dois.
Ainda com o destino longe desfiaram o novelo que havia nascido em tantos anos de caminhos paralelos. E falaram das suas vidas como quem foi às compras e tenta mostrar ao outro que as suas foram as mais acertadas.
Com o comboio parado no último apeadeiro antes do seu destino e com o amigo do lado de fora a acenar e a sorrir, sentiu o telemóvel vibrar. Tinha uma mensagem nova: “Amor já estou em casa. Quando chegares ao quartel dá-me um toque. Desculpa não ter esperado pelo comboio partir antes de ir embora, mas apareceu a minha prima de França a chorar. Depois conto. Beijo.”
O comboio retomou a viagem. Quando esticava a perna para guardar o telemóvel encontrou no lugar vazio, deixado pelo amigo, o canhoto de uma viagem Paris-Lisboa.

Miguel Alves

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