terça-feira, janeiro 22, 2008

MenteQueSentes - Crescente

Ri por um
Enquanto te vestes por dois
Manda cartas para três
Fá-las passar por quatro
Surpreende cinco vezes
Imagina seis reacções
Conta sete ondas
Fotografa oito marés
Olha para o relógio às nove
Abraça-te como se não existissem as dez.

Miguel Alves

sexta-feira, janeiro 11, 2008

MenteQueSentes - Partilha

O teu sorriso lindo
a certeza com que trabalho as palavras
e preparo a tua reacção
e o branco
que dividimos ao meio
uma metade para as tuas serpentinas
a outra para os meus espelhos.

Miguel Alves

sexta-feira, janeiro 04, 2008

MenteQueVives - Jardim caído

O jardim estava caído dentro da cidade. Nunca tinha saído daquele sítio, nunca tinha muito menos subido para espreitar o topo dos prédios, nunca tinha sido um qualquer gesto. Mas estava agora caído, e tudo nele estava caído também. As flores que em invernos como este não eram flores mas pelo menos sussurravam ao vento a vontade de o serem, os caminhos que tinham vários fins e que agora restavam-lhes o mesmo ínicio, os candeeiros que diminuiam a electricidade com o glamour das suas formas e que agora tinham nela o único motivo para lá estarem, o portão que tantas vezes viu prevenida a ferrugem já não sabia passar sem esta, sem a cumplicidade de quem chega sem anunciar, deixando-nos depois a vontade de não pensar num anúncio de despedida.
Hoje vi assim o meu jardim. Caído. Amanhã talvez esteja levantado, ou até hoje mesmo, mas por outros olhos.

Miguel Alves

quinta-feira, dezembro 20, 2007

MenteQueVives - Língua de fora

Pôs a língua de fora e correu.
Melhor, limpou a alma do pai com olhos da cor do mundo, ajeitou a roupa torcida, torcendo-a ela. Perguntou ao pai que horas marcava o seu relógio enrugado, ele respondeu que na hora seguinte os espelhos já só lhe iriam afagar o rosto. Ela percebeu e deu dois pinotes. As areias debaixo dos seus sapatos quiseram naquele instante ser as fachadas que nos guardavam da vida de adulto. No fundo só queriam deixar de ser o som da criancice.
No momento em que me viu, pôs então a língua de fora e correu.
O pai continuou a ser pai no sorriso que me atirou. Eu continuei parado, sem saber o limite daquilo que guardei.

Miguel Alves

domingo, dezembro 16, 2007

MenteQueVives - Silhueta

Sentado, corcovado, calvo, a sua silhueta quebrava a claridade da janela e escoava-a para dentro da caneta, diluia-a na tinta e escondia-a no papel. Quando passei, eu de lado, ele de lado, não percebi logo o que fazia.
Não reconheci as noites em branco que me abraçavam de dia, os dedos subornados que me aqueciam sempre no mesmo lugar de Inverno ou até mesmo os meus dias inteiros a sublinhar o seu destino.
Nas páginas e páginas que saltitavam naquela secretária havia um homem sentado, corcovado, calvo, cuja silhueta de tanto gritar por mim, acabou no meu peito aconchegada pela origem do meu fôlego.

Miguel Alves

quarta-feira, dezembro 05, 2007

MenteQueVives - A casa dele

Na casa dele cabiam cabides para casacos dos outros, haviam luzes que economizavam solidão, sabia-se o tempo pelo movimento nas paredes.
No dia que deixei de o conhecer pela boca larga de um jornalista, emagreci o desconhecimento que julgava ter dele e junto à portada, ainda junto à portada, sorrimos. Talvez pela diferença de idades comum mas diferente, talvez pela guitarra portuguesa a lembrar anos verdes, talvez pela cumplicidade da sombra de uma oliveira, naquele momento tanto dele como minha. Com o cheiro a café misturado no açucar da sua conversa, num alpendre interior à sua alma, exterior à casa, conheci uma multidão.
Quando mostrei a minha felicidade já regressava sozinho a outra casa, que também seria dele.
Miguel Alves

terça-feira, novembro 27, 2007

MenteQueSentes - Parábolas

Muitas são as parábolas
que quem não vê não ignora
tantas são as formas
que o mundo tem.

Miguel Alves

segunda-feira, novembro 26, 2007

MenteQueSentes - Procuro livro

Procuro livro com 2,4 cm de espessura, capa dura e sem letras em relevo. O objectivo é nivelar uma mesa de cabeceira e será uma situação temporária, tenciono comprar uma nova. Por isso não uso calços em madeira porque com o livro sempre posso dar-lhe outra utilização, como por exemplo lê-lo. Já agora prefiro evitar biografias por eventuais efeitos secundários na pessoa em questão, livros de viagens por eventuais problemas diplomáticos e livros religiosos porque pode pesar-me na consciência o dobro do que pesa a mesinha de cabeceira. Fico a aguardar sugestões, até lá vou continuar a pousar o copo de água no chão. Para quem tenha ficado curioso, a mesinha de cabeceira ficou manca por ter usado o bocado da perna para servir de suporte no meio de uns livros, numa estante que não é minha.

Miguel Alves

Palavras também aqui

terça-feira, novembro 20, 2007

MenteQueVives - Partilha da liberdade

Fechou o estaminé. Caminhou livre o tempo que pôde, as crianças em casa logo logo diriam quanto.
O cabelo fechava cada passo como a batida lógica de um coração. Sonhou não ser livre naquele momento. Olhou o chão pintado pelos seus próprios pés e imaginou ter as mãos ocupadas com as outras mãos que um dia encontrou dentro de si.
A luz do dia era cada vez menor mas o espaço ocupado pelo mapa era ainda mais rápido a desaparecer.
Mal perdeu a liberdade deu um tiro no pé e tratou de agravar a pena com alguns excessos que trazia no bolso. Não foi o suficiente nem para compensar o tempo que esteve livre nem para merecer a prisão daqueles braços. Mas na verdade, no momento em que naquele mesmo dia gastou o mapa, já a liberdade estava a ser oferecida a quem ainda achava estar apenas a partilhá-la.

Miguel Alves

sexta-feira, novembro 02, 2007

MenteQueVives - Canto do mundo

Luz que parecia música ou música que parecia luz? Nos corredores, nas bilheteiras, nos balcões, atrás da cortina, em cima do palco, atrás da máquina do algodão doce, de canto em canto recebiam-se a música e a luz sem que fosse possível imaginar uma sem a outra. A nobre distinção de as acolher, recomendava, pelo menos naquele teatro, que ambas se confundissem como a ansiedade e o desejo, o dinheiro e o alívio, os olhos e a imaginação, as mãos e a corda, as tábuas e as sabrinas, o açucar e o corante.
Para garantir a união havia corpos que bailavam como searas debaixo do luar, corpos que mantinham o peso morto da consciência longe daquele teatro e soltavam do palco, do canto do mundo, a leveza das suas massas como se fossem feixes de uma luz que não cabia dentro da orquestra.

Miguel Alves

Estas palavras também podem ser lidas aqui

quarta-feira, outubro 17, 2007

sexta-feira, setembro 28, 2007

MenteQueSentes - Casa de férias

Na partida da casa alugada
ficou a carpete
inutilmente memorizada
ficou a amostra
da primeira cartada.
E ficou a moldura da nossa cómoda
mais pesada
levando-nos agora a pensar
na estrada
que tantas vezes reclamou
para também ela ser fotografada.

Miguel Alves

segunda-feira, setembro 24, 2007

MenteQueVives - Cratera na lua

Havia fumo de uma vida enrolado nos decibéis negros e profundos. Uma vida que não era dele e que não queria que fosse dele. Tudo aquilo que saía de cada corpo se confundia com vidas. Vidas inteiras projectadas como o fumo daquele angustiante cigarro que o rodeava no momento que o vi e agarrei todo cenário. Óculos escuros desnecessários, tatuagens tão falsas quanto verdadeiras, gestos gritantes abafados por nenhuma vontade em os entender.
Vidas inteiras despejadas na noite, de dentro de uma cratera na lua, cubo de cimento onde pessoas davam pernas a livros, centenas de livros por encadernar.

Miguel Alves

quarta-feira, agosto 22, 2007

segunda-feira, agosto 13, 2007

MenteQueSentes - Os teus olhos

O meu brilho é culpa dos teus olhos
que quando choram fazem parar a queda do sol sobre o mar
que quando sorriem acompanham a lua na volta de uma vida
que quando olham fazem o cheiro das flores ter imaginação
duplicando o seu desejo de chegar a alguém!

Miguel Alves

quinta-feira, agosto 09, 2007

MenteQueSentes - Mudar

Mudar porque preciso
encontrar num dia que ainda não vivi
o abraço que se perdeu.
Mudar para não esquecer
sem querer perder o que ouvi
e me fez cantar.
Mudar porque preciso
tenho ainda luz
tenho outra mão
que se segura na minha estrada
e os dias que faltam
têm de ter uma história para contar.

Miguel Alves