segunda-feira, novembro 27, 2006

MenteQueSentes - Proveta

Nasceu o malabarista.
Aquele que usa o tempo
a seu favor
e faz a ciência rodopiar
mostrando ao mundo
que a vida
não tem salas de espera.

Miguel Alves

terça-feira, novembro 14, 2006

MenteQueVives - Retrovisor

Não era suposto a senhora estar ali. Era uma via rápida. Não só passavam carros como passavam sem perceberem o que deixavam para trás. Estava vestida de negro, um negro fundo onde a luz do Sol se partia e fazia crescer as rugas.
Vi-a porque tive de sair por aquela estrada. Se meu destino não fosse aquele, provavelmente faria como tantos outros, passava sem abrandar, com a vida encaixilhada em cima de um capot. Ia perder o atrevimento com que me acenou.
Não vi se passou a estrada. Não vi se continuou a apertar a mala de mão. Não vi se sorriu ao ver o meu espanto. Não vi se chegou tarde a casa. E também não vi se tinha fotografias escondidas. Tudo o que consegui ver foi uma menina a rodar a saia, com duas tranças a dar-lhe juizo e as mãos nas ancas a chamar a luz do Sol. Mas talvez não tenha sido bem assim, mesmo que o retrovisor nos mostre sempre o que nos persegue.

Migel Alves

segunda-feira, novembro 13, 2006

MenteQueSentes - Ó Gente da Minha Terra

(Há dias tão bonitos que a nossa alma merece um fado... assim...)

É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi

E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi

Amália Rodrigues

quinta-feira, novembro 09, 2006

MenteQueVives - Sem espelho

O espelho não estava embaciado. Não pela falta de reacção quimica, mas pelo que não reflectia. O arranhar de lâmina a escanhoar o pelo, era impresso na perfeição como uma lista de compras, desejos. Não estava nú nem podia estar, com tanta pressa em acabar o aprumo matinal.
Mal terminou, interagiu com o resto dos objectos como se fossem mensageiros de uma ausência. O interruptor permaneceu parado, tal como antes de entrar. A única luz era interior e era só sua. Ao contrário da imagem que não lhe pertencia e que nem o espelho lhe podia devolver.

Miguel Alves

segunda-feira, novembro 06, 2006

MenteQueSentes - A morada habitual

Rasgou o momento
como uma rua
aconchego para os lados
arena no meio
e sem que os braços
subissem
por qualquer campainha
criou passos
porque nenhuma casa
merece ser a morada habitual.

Miguel Alves

quinta-feira, outubro 26, 2006

MenteQueSentes - Quarta-Feira

A quarta-feira da semana
a quarta-feira da vida
a submissão plena
da querida paragem sem preguiça
apeadeiro fantasma
onde se inclinam o resto dos dias.

segunda-feira, outubro 23, 2006

MenteQueVives - Sonho no autocarro

Uma mota galopava pelo passeio com um capacete como condutor e uma saca a duplicar o motor. De uma porta em vidro saiu uma mulher entretida com a ideia de como havia de manter o novo penteado até ao dia seguinte. Dois homens cumprimentaram-se à moda antiga, boina ao ar, sorriso rasgado, mão comprometida e por perto, um miúdo de boné de lado ajeitou o leitor de mp3 no bolso e rapidamente apanhou uma chucha do chão.
Começou a chover. Por entre o som dos pingos sobressaiu um homem ao telemóvel que engelhou a cara, cobriu o aparelho com a outra mão e certamente terá ido procurar abrigo para continuar a conversa.
Já com o autocarro a abrandar ainda consegui perceber que no céu as nuvens pareciam querer fugir, e alguns raios de Sol quase rebentavam os meus olhos. Deixei-me ficar.
Fui o último a sair. Não porque fosse o que estava mais afastado da porta mas porque não acordei quando o autocarro parou. Quem me acordou de vez, foi um senhor de boina, que soube ainda quando comprava o bilhete, que vinha encontrar-se com os seus dois filhos. O mais velho já com dois descendentes, um com catorze, o outro ainda de berço. E a mais nova era dentista, mas segundo disse nem precisava sê-lo, porque casou com um empresário bem sucedido.
Só hoje de manhã percebi quem era o homem da mota, quando reparei em quem deixava o pão fresco à porta de casa. E tudo porque como sempre vinha de mota, mas desta vez sem o capacete. Cumprimentei-o pela primeira vez.

Miguel Alves

quarta-feira, outubro 18, 2006

MenteQueVives - A Escada

É a escada mais bonita que alguma vez vi. Larga o suficiente para não deixar que de uma extremidade à outra um sopro faça dançar a chama de uma vela. Branca como a neve antes de tocar o chão, mas rugosa como a pele de um avô. Tantos degraus quantos os desejos que plantamos em cada estrela. E generosa o suficiente para deixar que um corrimão a separe, como o risco ao meio de um penteado por sair à rua.
Quem a sobe não sabe, nem quer saber, quem a fez. Quem a desce acredita que a podia ter feito melhor e gostava de o poder dizer ao criador.

Miguel Alves

sexta-feira, outubro 13, 2006

MenteQueProcuras - A Cigarra e a Formiga

- Li que 1/4 dos Portugueses gostavam de ser Espanhóis!
- Será que temos assim tantas Cigarras?

quinta-feira, outubro 12, 2006

MenteQueSentes - Cartas

Essa burguesa
casada com o cérebro de uma lavandaria
o da gravata presa na braguilha
bigode desnorteado e choramingas.
A que rompe meias
por querer cruzar as pernas demais.
Vai de prédio em prédio
perguntar se alguém recebeu uma carta.
Quando chega a casa
reune à mesa um prato de sopa
e um recibo de compras para dispensar.
Quando o dito cujo chega
aprende rapidamente
como se comportar com um cliente abusivo
descalça os sapatos
e escreve mais uma carta.

Miguel Alves

sexta-feira, setembro 29, 2006

MenteQueVives - Canhoto (Não há vida que se conte inteira)

Quando se despediu só conseguiu acenar, o rosto não transpirou qualquer sorriso, tal era a preocupação em subir as escadas da carruagem sem soltar o saco para mais uma temporada.
Sentou-se no primeiro lugar vazio que encontrou ao lado da última pessoa que esperava encontrar. Por isso nem tentou mostrar pela janela o sorriso suspenso à entrada.
O rosto do amigo de há anos estava diferente, mas não o suficiente para alterar o desenrolar do diálogo tão característico entre os dois.
Ainda com o destino longe desfiaram o novelo que havia nascido em tantos anos de caminhos paralelos. E falaram das suas vidas como quem foi às compras e tenta mostrar ao outro que as suas foram as mais acertadas.
Com o comboio parado no último apeadeiro antes do seu destino e com o amigo do lado de fora a acenar e a sorrir, sentiu o telemóvel vibrar. Tinha uma mensagem nova: “Amor já estou em casa. Quando chegares ao quartel dá-me um toque. Desculpa não ter esperado pelo comboio partir antes de ir embora, mas apareceu a minha prima de França a chorar. Depois conto. Beijo.”
O comboio retomou a viagem. Quando esticava a perna para guardar o telemóvel encontrou no lugar vazio, deixado pelo amigo, o canhoto de uma viagem Paris-Lisboa.

Miguel Alves

MenteQueSentes - O primeiro sete

Depois das sete circunferências
em volta do mamilo
antes do gesto económico do adeus
enfim, choro
e peço àgua
ou sede ou vigilância.
Meu coração espera
para pecar e ser esquecido.
O desgosto branco nunca tido.

Miguel Alves

segunda-feira, setembro 25, 2006

MenteQueVives - Número

Agarrou no telefone e marcou o número que minutos antes não se lembrava ter.
Enquanto chamava a outra pessoa na linguagem das máquinas, coçava a cabeça com a mão livre. Gesto que imediatamente se transformou num leve pentear assim que do outro lado ouviu a voz feminina.
Não deixou entender se demorou a responder por não ter a certeza se era a voz certa ou por normal hesitação de quem tem de pedir e sabe que nunca vai poder retribuir.
Após o segundo “Estou?”, soltaram-se palavras já petrificadas pelo passar dos anos. Com a mão livre agora esquecida na face, tentou, tentou, tentou. Em vão. Não foi correspondido pelo número que minutos antes estava perdido na sua memória. Número que nem fazia parte da agenda electrónica, que estava tatuado numa folha de papel da agenda antiga, algures entre duas letras cúmplices de uma noite de peito cheio.
O número, o número. E a voz que esteve por trás, para ele e durante tanto tempo vazia, abandonada, fria? Essa voz só não deixou de responder porque decorou outros números, que nunca deixaram de ser números, mas decorados como se fossem nomes.
Miguel Alves

MenteQueSentes - Um dia feliz

Acordaram
com suaves ondas
de um mar temporário.
O Sol escavava a enseada
com sombras e vertigens.
E foi com coragem
que ele chegou
primeiro que a maré
para escrever
que este seria
um dia feliz.

Miguel Alves

sexta-feira, setembro 22, 2006

MenteQueProcuras - Dias disto e daquilo

- Já ouviste falar no dia Europeu sem carros?
- Sim, já.
- E não achas que é mais um como o dia dos Avós?
- Como assim?
- Coisas que ficam bem lembrar... e que ainda é preciso lembrar...

quarta-feira, setembro 20, 2006

MenteQueVives - Curriculum Vitae

Subia agora a rua da Igreja de mala a tiracolo e olhar empedrado na calçada portuguesa. Quando passava um carro só o vento lhe alterava por instantes o penteado, nada mais naquele corpo se alterava por mais objectos ou pessoas que figurassem naquela cena. Nada no corpo e na alma, dentro e fora estava estampada a raiva de mais uma entrevista de resultado vazio.
Só a segui por causa do rosto perfumado, pelo menos aos meus olhos, e pela presença de um rótulo, visível mal ouvi a sua voz.
Aquela atracção fez-me quase dar uma contribuição aos escuteiros que me acenavam calendários como moinhos de vento. Quase dei a contribuição, quase caí na calçada minada pelas primeiras chuvas de Outono, quase corri não fosse a BD vermelha dos semáforos, quase senti o cheiro a lavanda de um lavador de janelas, quase chamei um marroquino que entre relógios e óculos de sol amarrotava rosas vermelhas.
Quase que a contratara momentos antes, não fosse um parágrafo do seu Curriculum Vitae estar ainda apagado.

Miguel Alves