Caminhava tentando pisar todas as pedras da calçada. Quando se cruza comigo uma voz: “O fim da crise só acontece com uma grande guerra ou uma ditadura!”. Apesar do chapéu de chuva ainda lhe vi o rosto, desafinado. E não percebi porque disse aquilo. A chuva caía igual para os dois, as pedras da calçada eram as mesmas, ambos segurávamos um chapéu de chuva, ainda que de Invernos diferentes. Seria pelos diferentes inícios da rua?
domingo, maio 17, 2009
quinta-feira, março 19, 2009
MenteQueSente - Laços
"Sweet dreams are made of this..."
Uma roupa à nascença
um colo que se preocupa
e que se senta
no chão
outrora um colo
outrora vestido à nascença.
Uma roupa à nascença
um colo que se preocupa
e que se senta
no chão
outrora um colo
outrora vestido à nascença.
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
MenteQueSentes - B.I. Bio
Tenho um bocado de terra
que não sai da minha mão.
Ficou nas rugas
e por mais água que passe
não sai.
Por mais dor que sinta
ao rasparem
ela não sai.
Não sai
e enquanto for assim
não me preocupo
com quem sou.
que não sai da minha mão.
Ficou nas rugas
e por mais água que passe
não sai.
Por mais dor que sinta
ao rasparem
ela não sai.
Não sai
e enquanto for assim
não me preocupo
com quem sou.
sábado, fevereiro 14, 2009
MenteQueVives - Ritual do trapézio
Acreditava que para soltar o trapézio, lá em baixo, no meio da multidão, um rosto tinha de a fazer lembrar o primeiro dia que balançou. Tinha de rever o seu sorriso. Rasgado. Iluminado por uns olhos bem abertos e por preencher.
Em noite de espectáculo era sempre assim. A certeza dos aplausos entrava como um pé direito, pelo olhar de alguém ainda com esperança.
Era este imaginário que a deixava soltar um trapézio e agarrar o outro, como se fosse tudo um só gesto.
também aqui
quarta-feira, janeiro 21, 2009
MenteQueVives - Paredes infinitas
À noite deitava-se sempre de barriga para baixo. Tinha as paredes do quarto pintadas com cores dadas por alguém. Um poster atrás da porta que ninguém deu, poucos viram e muitos procuravam. No chão coisas apoiadas em pernas ou também deitadas de barriga para baixo. No tecto a certeza que tudo aquilo era visivel mesmo sem a luz do Sol. E tantas coisas a preencher o resto. Tantas coisas dela, que desistiu da ideia de comprar prateleiras ou armários. E não foi por recear não haverem suficientes, foi porque não queria que aquelas coisas ganhassem pó. Aquelas tantas coisas que quando de noite se deitava de barriga para baixo, voavam pela janela e ajudavam a esticar os sonhos até ao dia seguinte. Até ao momento em que lhe chegava outra cor para pintar mais um pedaço de parede.
segunda-feira, dezembro 22, 2008
MenteQueVives - Não é Natal enquanto espera
A minha avó a preparar filhós e o Natal à espera!
O frio a acender a lareira, a lareira a apagar outras famílias e o Natal à espera!
As luzes na árvore a piscar, não mais que a televisão e o Natal à espera!
O papel de embrulho a esconder o verdadeiro motivo da prenda e o Natal à espera!
É só mandar mais um e-mail... prometo!
O frio a acender a lareira, a lareira a apagar outras famílias e o Natal à espera!
As luzes na árvore a piscar, não mais que a televisão e o Natal à espera!
O papel de embrulho a esconder o verdadeiro motivo da prenda e o Natal à espera!
É só mandar mais um e-mail... prometo!
quinta-feira, dezembro 11, 2008
terça-feira, novembro 11, 2008
MenteQueVives - O caminho da voz
Era de noite e a voz caminhava, ora negra ora sedutora. Levava do canto daquela sala, o sentimento de cada rosto. Uma taça de tinto juntava a pele á alma. O avental parava sem o silêncio e rebuscava nas palavras o nome de alguém. Talvez de um cliente. O destino de quem conhecia a voz ficava à distância de um fado. A sala estava cheia. Tão cheia, que o som atropelava vidas que os olhares não conseguiam guardar. E dali a voz caminhava, sobre o relevo de um mapa. Solto e á espera do mar.
também por aqui
quinta-feira, novembro 06, 2008
terça-feira, outubro 28, 2008
MenteQueVives - Encantado na contagem
Estava sentado na cadeira da varanda quando me lembrei de tentar contar velhos. Ver quantos velhos passavam na rua em frente à minha varanda.
Não demorou muito a passar um com uma boina nova e de blazer da cor da temperatura. Mancava da perna direita e pelos poucos gestos parecia sereno após anos de dedicação. Talvez em excesso.
Demorou a aparecer outro. Uma senhora. Cabelo estranhamente roxo ou estranhamente branco. Mexia na bolsa. Depois de passar percebi que retirava uma prenda. Pelo embrulho era para uma criança. Uma menina. De certeza que era para uma neta, senão tinha esperado até chegar ao destino para retirar a prenda da bolsa.
De imediato cruzaram-se com esta senhora, dois velhos. Lado a lado mas com destinos diferentes. O do lado da estrada mantinha os olhos fixos em qualquer coisa que naquele momento, nada mais era que não um falso objectivo. O outro olhava o chão, quando de repente levantou o olhar na minha direcção. Nada fiz. Mas pareceu que lhe havia tocado na face e rodado o rosto na direcção do outro velho. Percebi que pensava em alguma decisão em tempos mal tomada. Mal acabam de passar estes, vi que outro havia passado do lado de lá da estrada. Vestia um fato de treino e levava um saco do supermercado. Era dia de jogo. Final da taça. O passo apressado e o volume do saco não enganavam. Iria receber o filho para jantar e os dois iam comandar o jogo do sofá. Talvez o filho já o fosse acompanhar no pessimismo, sem que por isso o número de pulsações fosse menor do que em outros tempos.
Ainda tentava perceber se era o filho que se aproximava do velho quando ouvi chamarem-me para jantar. Percebi que não sabia contar... pessoas.
Não demorou muito a passar um com uma boina nova e de blazer da cor da temperatura. Mancava da perna direita e pelos poucos gestos parecia sereno após anos de dedicação. Talvez em excesso.
Demorou a aparecer outro. Uma senhora. Cabelo estranhamente roxo ou estranhamente branco. Mexia na bolsa. Depois de passar percebi que retirava uma prenda. Pelo embrulho era para uma criança. Uma menina. De certeza que era para uma neta, senão tinha esperado até chegar ao destino para retirar a prenda da bolsa.
De imediato cruzaram-se com esta senhora, dois velhos. Lado a lado mas com destinos diferentes. O do lado da estrada mantinha os olhos fixos em qualquer coisa que naquele momento, nada mais era que não um falso objectivo. O outro olhava o chão, quando de repente levantou o olhar na minha direcção. Nada fiz. Mas pareceu que lhe havia tocado na face e rodado o rosto na direcção do outro velho. Percebi que pensava em alguma decisão em tempos mal tomada. Mal acabam de passar estes, vi que outro havia passado do lado de lá da estrada. Vestia um fato de treino e levava um saco do supermercado. Era dia de jogo. Final da taça. O passo apressado e o volume do saco não enganavam. Iria receber o filho para jantar e os dois iam comandar o jogo do sofá. Talvez o filho já o fosse acompanhar no pessimismo, sem que por isso o número de pulsações fosse menor do que em outros tempos.
Ainda tentava perceber se era o filho que se aproximava do velho quando ouvi chamarem-me para jantar. Percebi que não sabia contar... pessoas.
domingo, outubro 12, 2008
MenteQueVives - Branco sensível
A coluna já estava branca. Mas era a sua missão branquea-la ainda mais.
Um escadote, um rolo, um balde de tinta, um carro de supermercado e um par de óculos. Pessoas corriam de um lado para o outro, com malas a estender as suas personalidades. Não viam o artista. Viam uma coluna branca. Já de si branca.
Ele pintava, tocava com o rolo da tinta, pensava na hora de jantar e pintava.
Houve um homem na mesa do café que finalmente reparou no artista. Perguntou-lhe porque pintava de branco uma coluna já de si branca. O artista respondeu que estava a aplicar uma segunda demão e pensou na hora do jantar.
O homem do café já em sua casa, sozinho, foi rever a foto de fim de curso.
Um escadote, um rolo, um balde de tinta, um carro de supermercado e um par de óculos. Pessoas corriam de um lado para o outro, com malas a estender as suas personalidades. Não viam o artista. Viam uma coluna branca. Já de si branca.
Ele pintava, tocava com o rolo da tinta, pensava na hora de jantar e pintava.
Houve um homem na mesa do café que finalmente reparou no artista. Perguntou-lhe porque pintava de branco uma coluna já de si branca. O artista respondeu que estava a aplicar uma segunda demão e pensou na hora do jantar.
O homem do café já em sua casa, sozinho, foi rever a foto de fim de curso.
quinta-feira, outubro 02, 2008
domingo, setembro 21, 2008
MenteQueVives - A tabuleta
Uma tabuleta tentava cirandar por cima da porta dos correiros. Presa a duas correntes, paralelas em tudo, aguentava o vento e o sol, a ânsia e o alívio, os passos e os silêncios. Tentava cirandar porque não tinha para onde ir. Tentava cirandar por queria dizer algo.
As letras que lhe calharam concordavam e pareciam querer dizer mais alguma coisa. Não cheguei a concluir.
Entrei. Saí.
Retive-me um pouco do outro lado da estrada, a ver a tabuleta tentar cirandar.
Segurei a carta com a outra mão que não aquela que a apertava quando entrei. Não enviei a carta.
A tabuleta tocou uma melodia com o riso das correntes. Pareceu-me.
Não enviei a carta e suavemente fui desligando a tabuleta. Pensando onde poderia ir eu, agora sim, cirandar.
As letras que lhe calharam concordavam e pareciam querer dizer mais alguma coisa. Não cheguei a concluir.
Entrei. Saí.
Retive-me um pouco do outro lado da estrada, a ver a tabuleta tentar cirandar.
Segurei a carta com a outra mão que não aquela que a apertava quando entrei. Não enviei a carta.
A tabuleta tocou uma melodia com o riso das correntes. Pareceu-me.
Não enviei a carta e suavemente fui desligando a tabuleta. Pensando onde poderia ir eu, agora sim, cirandar.
quinta-feira, setembro 11, 2008
MenteQueVives - O caminho dos golfinhos
Gente, muita gente. A água a reflectir tudo, no brilho, na cor, na expectiva.
Gente, muita gente. E o brilho e a cor da água foram subitamente misturados. Desapareceu a expectaviva. E daquela gente, muita gente, sairam sonhos e viagens.
Os golfinhos não eram muitos, mas tocaram em cada coração daquela gente, muita gente. Sem ninguém esperar vez para que isso acontecesse.
Excepto duas meninas, que não esperaram sequer que fossem os golfinhos a tocar-lhes no coração. Sopraram os seus corações para eles. E a partir daquele momento, já não havia gente, muita gente. Sairam todos. Ficaram apenas as duas meninas, que recolhiam no colo, a água límpida que saltava do caminho dos golfinhos.
Vi uma das meninas misturar lágrimas dos seus dias felizes com aquela água. A outra guardava-a. Para soltá-la quando também soubesse o que é sorrir, com um coração cheio de dias felizes.
Gente, muita gente. E o brilho e a cor da água foram subitamente misturados. Desapareceu a expectaviva. E daquela gente, muita gente, sairam sonhos e viagens.
Os golfinhos não eram muitos, mas tocaram em cada coração daquela gente, muita gente. Sem ninguém esperar vez para que isso acontecesse.
Excepto duas meninas, que não esperaram sequer que fossem os golfinhos a tocar-lhes no coração. Sopraram os seus corações para eles. E a partir daquele momento, já não havia gente, muita gente. Sairam todos. Ficaram apenas as duas meninas, que recolhiam no colo, a água límpida que saltava do caminho dos golfinhos.
Vi uma das meninas misturar lágrimas dos seus dias felizes com aquela água. A outra guardava-a. Para soltá-la quando também soubesse o que é sorrir, com um coração cheio de dias felizes.
domingo, agosto 17, 2008
MenteQueVives - O carrinho que escolhemos
O puto queria descer a rampa com o carrinho que recebeu este ano. Queria descer tal como tinha feito o ano passado, com o outro carrinho. Desta vez chovia, a erva ao meio era mais pequena, uma das casas tinha uma cor diferente, as pernas dele eram maiores.
Estava decidido, mais até que no ano passado. Apesar de ser a primeira vez que ia descer com aquele carrinho.
O fundo da rampa estava na mesma. Pequeno visto de cima, infinito quando se pisava. Com a confiança de quem evolui, deixou de tocar o chão com o pé e sentiu as costas aumentar. A meio da rampa já não se lembrava do carrinho do ano passado. E foi já parado com sucesso, que voltou a pensar nele, quando sentiu as feridas que tinha nos joelhos.
Porém demorou a perceber, que tinha escolhido o carrinho deste ano, ainda no ano passado.
terça-feira, agosto 05, 2008
MenteQueVives - Desejo tatuado
Não era proibido atirar pensamentos mar adentro. Podia-se sentar e pôr os pés em cima das rochas. Não havia problema em tirar do sítio as areias. Era permitido alimentar o animal que andava à solta dentro dela.
Para não ser reconhecida como adulta bastava-lhe tocar o céu, sempre que uma voz a chamava de uma velha janela destorcida.
Esperava que uma estrela cadente sorrisse ao som dessa voz, para poder tatuar o desejo na manhã seguinte.
Também aqui
Para não ser reconhecida como adulta bastava-lhe tocar o céu, sempre que uma voz a chamava de uma velha janela destorcida.
Esperava que uma estrela cadente sorrisse ao som dessa voz, para poder tatuar o desejo na manhã seguinte.
Também aqui
terça-feira, julho 08, 2008
MenteQueSentes - Primeiro brilho
Foi recolhida uma estrela.
Recebeu o brilho que lhe faltava
e não quer voltar a subir.
Não quer perder o céu que encontrou
numa história em que o Sol
anda de mão em mão.
Recebeu o brilho que lhe faltava
e não quer voltar a subir.
Não quer perder o céu que encontrou
numa história em que o Sol
anda de mão em mão.
segunda-feira, junho 30, 2008
MenteQueVives - Casa torta
Era a casa mais torta que alguma vez vi. Tinha tinta de um amarelo trocado, janelas e portas com esquadria só de manhã. Por cima o telhado queimado, a lembrar uma camisa por passar. Por baixo o chão que só se endireitava ao longe.
Em volta o jardim ria de tudo aquilo e acenava a cada pessoa que passava. Em especial uma flôr esbranquiçada que nessas alturas fingia até ter raiz na terra do vizinho.
Era a casa mais torta que alguma vez vi, mas pior era não reconhecer sequer uma casa, em pedaços de gente que se fizeram por ali.
terça-feira, junho 24, 2008
MenteQueSentes - ...o livro que eu não li
Anda por aí um livro
não tem nome
mas tem cheiro
e na página seguinte
tem sempre um rosto
que no fim
recolhe a história
e olha para mim.
não tem nome
mas tem cheiro
e na página seguinte
tem sempre um rosto
que no fim
recolhe a história
e olha para mim.
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