quarta-feira, novembro 18, 2009
MenteQueVives - Porta de embarque
terça-feira, novembro 03, 2009
MenteQueVives - Rua com saída
Alinhou o olhar com o horizonte. O mesmo que a perseguia desde a adolescência, umas vezes espremido pelo bafo do céu, outras mimado pelo brilho do mar. Era por ele que abria a janela.
Eu cá em baixo, continuava a ver uma rua impaciente. Ora parada, ora a saltar. Ora esforçada, ora vidrada.
E ela coninuava serena, a levar para casa uma janela e para a rua, uma saída.
quinta-feira, outubro 15, 2009
MenteQueVives - Viagem solitária (a dois)
momentos antes de romper a monotonia, com uma viagem ao centro do umbigo dela.
sexta-feira, outubro 09, 2009
MenteQueSentes - Estado leve
o que não canto.
E enquanto o faço
é de ti
que saiem as coisas
que no príncipio
não são tudo
nem são nada.
Que pousadas em mim
nesse estado leve
partem para o mundo
levando-me atrás
em bicos dos pés.
quarta-feira, setembro 30, 2009
MenteQueVives - O homem que ninguém vê
- Homem de meia idade. Cabelo ondulado grisalho. Óculos rectangulares com as lentes baças. Camisa ás riscas verticais, com a barriga a expulsá-la das calças e as costas a fazer o inverso. Sapatos limpos, mas o direito com o atilho solto. Simpático mas por não por mostrar um sorriso. Solteiro.
- Compra calças de ganga nos hipermercados. Sem dar nas vistas, foge de vendedores de cartões de crédito. Quando compra o jornal começa a lê-lo já depois de o ter deixado bem amachucado. Nas lojas não escolhe nada, porque bastou-lhe fazê-lo uma vez. Antes de sair de casa faz uma festa ao gato e depois de bater a porta, ajeita o tapete com o pé direito.
quarta-feira, setembro 16, 2009
MenteQueSentes - Luta
Tentado escrever palavras que me soltem
palavras que me levem até outro momento, que não seja só meu.
Tento e algo resiste.
Algo que por não ser menos belo decidi colocar aqui
em forma de quase nada.
Uma vez li que quando falta de inspiração também se deve escrever.
Por isso descrevo-a pela primeira vez assim.
Quem ainda não a leu neste texto
não espere lê-la, porque tal como a inspiração
tantas vezes dissimulada numa só palavra
a falta dela já se encontra marcada, algures atrás.
domingo, agosto 02, 2009
MenteQueSentes - Terraço dos sonhos
talvez percebesses
porque tanto atiro a pedra mais longe do que tu
como a deixo cair, tal como a tua, bem perto da margem.
Talvez percebesses
porque tanto te levanto e deixo tocares o tecto da sala
como te mostro o quão longe ele fica de ti.
Talvez percebesses agora
mas não quero.
Prefiro contar-te tudo
quando a minha pedra permanecer seca
e o tecto da sala
for o terraço dos teus sonhos.
segunda-feira, junho 15, 2009
domingo, maio 17, 2009
MenteQueSentes - O início no fim da rua
quinta-feira, março 19, 2009
MenteQueSente - Laços
Uma roupa à nascença
um colo que se preocupa
e que se senta
no chão
outrora um colo
outrora vestido à nascença.
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
MenteQueSentes - B.I. Bio
que não sai da minha mão.
Ficou nas rugas
e por mais água que passe
não sai.
Por mais dor que sinta
ao rasparem
ela não sai.
Não sai
e enquanto for assim
não me preocupo
com quem sou.
sábado, fevereiro 14, 2009
MenteQueVives - Ritual do trapézio
também aqui
quarta-feira, janeiro 21, 2009
MenteQueVives - Paredes infinitas
segunda-feira, dezembro 22, 2008
MenteQueVives - Não é Natal enquanto espera
O frio a acender a lareira, a lareira a apagar outras famílias e o Natal à espera!
As luzes na árvore a piscar, não mais que a televisão e o Natal à espera!
O papel de embrulho a esconder o verdadeiro motivo da prenda e o Natal à espera!
É só mandar mais um e-mail... prometo!
quinta-feira, dezembro 11, 2008
terça-feira, novembro 11, 2008
MenteQueVives - O caminho da voz
quinta-feira, novembro 06, 2008
terça-feira, outubro 28, 2008
MenteQueVives - Encantado na contagem
Não demorou muito a passar um com uma boina nova e de blazer da cor da temperatura. Mancava da perna direita e pelos poucos gestos parecia sereno após anos de dedicação. Talvez em excesso.
Demorou a aparecer outro. Uma senhora. Cabelo estranhamente roxo ou estranhamente branco. Mexia na bolsa. Depois de passar percebi que retirava uma prenda. Pelo embrulho era para uma criança. Uma menina. De certeza que era para uma neta, senão tinha esperado até chegar ao destino para retirar a prenda da bolsa.
De imediato cruzaram-se com esta senhora, dois velhos. Lado a lado mas com destinos diferentes. O do lado da estrada mantinha os olhos fixos em qualquer coisa que naquele momento, nada mais era que não um falso objectivo. O outro olhava o chão, quando de repente levantou o olhar na minha direcção. Nada fiz. Mas pareceu que lhe havia tocado na face e rodado o rosto na direcção do outro velho. Percebi que pensava em alguma decisão em tempos mal tomada. Mal acabam de passar estes, vi que outro havia passado do lado de lá da estrada. Vestia um fato de treino e levava um saco do supermercado. Era dia de jogo. Final da taça. O passo apressado e o volume do saco não enganavam. Iria receber o filho para jantar e os dois iam comandar o jogo do sofá. Talvez o filho já o fosse acompanhar no pessimismo, sem que por isso o número de pulsações fosse menor do que em outros tempos.
Ainda tentava perceber se era o filho que se aproximava do velho quando ouvi chamarem-me para jantar. Percebi que não sabia contar... pessoas.
domingo, outubro 12, 2008
MenteQueVives - Branco sensível
Um escadote, um rolo, um balde de tinta, um carro de supermercado e um par de óculos. Pessoas corriam de um lado para o outro, com malas a estender as suas personalidades. Não viam o artista. Viam uma coluna branca. Já de si branca.
Ele pintava, tocava com o rolo da tinta, pensava na hora de jantar e pintava.
Houve um homem na mesa do café que finalmente reparou no artista. Perguntou-lhe porque pintava de branco uma coluna já de si branca. O artista respondeu que estava a aplicar uma segunda demão e pensou na hora do jantar.
O homem do café já em sua casa, sozinho, foi rever a foto de fim de curso.
quinta-feira, outubro 02, 2008
domingo, setembro 21, 2008
MenteQueVives - A tabuleta
As letras que lhe calharam concordavam e pareciam querer dizer mais alguma coisa. Não cheguei a concluir.
Entrei. Saí.
Retive-me um pouco do outro lado da estrada, a ver a tabuleta tentar cirandar.
Segurei a carta com a outra mão que não aquela que a apertava quando entrei. Não enviei a carta.
A tabuleta tocou uma melodia com o riso das correntes. Pareceu-me.
Não enviei a carta e suavemente fui desligando a tabuleta. Pensando onde poderia ir eu, agora sim, cirandar.
quinta-feira, setembro 11, 2008
MenteQueVives - O caminho dos golfinhos
Gente, muita gente. E o brilho e a cor da água foram subitamente misturados. Desapareceu a expectaviva. E daquela gente, muita gente, sairam sonhos e viagens.
Os golfinhos não eram muitos, mas tocaram em cada coração daquela gente, muita gente. Sem ninguém esperar vez para que isso acontecesse.
Excepto duas meninas, que não esperaram sequer que fossem os golfinhos a tocar-lhes no coração. Sopraram os seus corações para eles. E a partir daquele momento, já não havia gente, muita gente. Sairam todos. Ficaram apenas as duas meninas, que recolhiam no colo, a água límpida que saltava do caminho dos golfinhos.
Vi uma das meninas misturar lágrimas dos seus dias felizes com aquela água. A outra guardava-a. Para soltá-la quando também soubesse o que é sorrir, com um coração cheio de dias felizes.
domingo, agosto 17, 2008
MenteQueVives - O carrinho que escolhemos
terça-feira, agosto 05, 2008
MenteQueVives - Desejo tatuado
Para não ser reconhecida como adulta bastava-lhe tocar o céu, sempre que uma voz a chamava de uma velha janela destorcida.
Esperava que uma estrela cadente sorrisse ao som dessa voz, para poder tatuar o desejo na manhã seguinte.
Também aqui
terça-feira, julho 08, 2008
MenteQueSentes - Primeiro brilho
Recebeu o brilho que lhe faltava
e não quer voltar a subir.
Não quer perder o céu que encontrou
numa história em que o Sol
anda de mão em mão.
segunda-feira, junho 30, 2008
MenteQueVives - Casa torta
terça-feira, junho 24, 2008
MenteQueSentes - ...o livro que eu não li
não tem nome
mas tem cheiro
e na página seguinte
tem sempre um rosto
que no fim
recolhe a história
e olha para mim.
segunda-feira, junho 16, 2008
MenteQueSentes - O nosso jogo
mas com vocês
que a bola não sorri
quando a chuto
entre um molho de pernas
que no final
não me vão ajudar
a levantar a taça
que ganhávamos
antes de cada jogo.
domingo, junho 15, 2008
sábado, maio 17, 2008
MenteQueSentes - Idade dos muros
domingo, maio 11, 2008
MenteQueVives - Vício interior
E pela maneira com que olhava as pessoas dava a entender que queria sair tarde. Conversou, riu-se e sentou-se perto de alguém, e de outro alguém e de outro alguém e de outros. Durante as palavras triunfantes, tocava no ouvinte. Como uma pedra no charco, questionava se a bebida era do agrado do falante.
Tudo se tornou para mim claro, quando nos cruzámos na casa de banho. Vi-o ignorar o espelho e olhar o seu rosto. Olhava fixamente os seus próprios olhos. Que droga tomaria para ser tão viciado no que interessa aos outros, sem que os outros percebessem o interesse que tinha, naquilo que só interessava a ele?
Também aqui
sexta-feira, abril 25, 2008
MenteQueVives - Lembrança que não fica na parede
Ela escusava de se mexer para encontrar o ritmo da dança que todos guardavam, mas ninguém ouvia. Em cada fim da mesa, haviam vidas que valiam a pena contar antes de serem engolidas, tal como a mousse de chocolate, enfeitada para o momento.
Houve movimentos normais de uma refeição, mas houve outros que me levaram a uma varanda perto do mar, longe de mim.
Ela sorriu para o empregado que atordoado já não servia, limitava-se a ser parte do sorriso. No momento em que a primeira cadeira começou a arrefecer sem retorno, outras seguiram o processo. Ela não saiu e hoje a lembrança também escorre nos meus dias.
Miguel Alves
sexta-feira, abril 18, 2008
sexta-feira, abril 04, 2008
MenteQueSentes - Flôr da confiança
porque sabe que de tarde
vai brilhar com o Sol
sem perder
a protecção da Montanha.
Miguel Alves
sábado, março 08, 2008
MenteQueSentes - A fé dos homens
e alimenta a sua esperança
com aquilo que não projectou.
Outro constrói um barco
e navega nas àguas
que não encontra perto de casa.
Miguel Alves
quinta-feira, março 06, 2008
MenteQueSentes - Aniversário de um anjo
Miguel Alves
terça-feira, março 04, 2008
MenteQueVives - Terreno sem emprego
sábado, fevereiro 16, 2008
MenteQueVives - À solta
Num outro momento tudo será lembrado, ainda que a repetição só seja possivel no sangue que cada um gravou.
Miguel Alves
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
MenteQueSentes - Nuvem
Quanto mais alto voava, mais queria ser a almofada do teu acordar.
Rita & Miguel
terça-feira, janeiro 22, 2008
MenteQueSentes - Crescente
Enquanto te vestes por dois
Manda cartas para três
Fá-las passar por quatro
Surpreende cinco vezes
Imagina seis reacções
Conta sete ondas
Fotografa oito marés
Olha para o relógio às nove
Abraça-te como se não existissem as dez.
Miguel Alves
sexta-feira, janeiro 11, 2008
MenteQueSentes - Partilha
a certeza com que trabalho as palavras
e preparo a tua reacção
e o branco
que dividimos ao meio
uma metade para as tuas serpentinas
a outra para os meus espelhos.
Miguel Alves
sexta-feira, janeiro 04, 2008
MenteQueVives - Jardim caído
O jardim estava caído dentro da cidade. Nunca tinha saído daquele sítio, nunca tinha muito menos subido para espreitar o topo dos prédios, nunca tinha sido um qualquer gesto. Mas estava agora caído, e tudo nele estava caído também. As flores que em invernos como este não eram flores mas pelo menos sussurravam ao vento a vontade de o serem, os caminhos que tinham vários fins e que agora restavam-lhes o mesmo ínicio, os candeeiros que diminuiam a electricidade com o glamour das suas formas e que agora tinham nela o único motivo para lá estarem, o portão que tantas vezes viu prevenida a ferrugem já não sabia passar sem esta, sem a cumplicidade de quem chega sem anunciar, deixando-nos depois a vontade de não pensar num anúncio de despedida.
Hoje vi assim o meu jardim. Caído. Amanhã talvez esteja levantado, ou até hoje mesmo, mas por outros olhos.
Miguel Alves
quinta-feira, dezembro 20, 2007
MenteQueVives - Língua de fora
Miguel Alves
domingo, dezembro 16, 2007
MenteQueVives - Silhueta
Não reconheci as noites em branco que me abraçavam de dia, os dedos subornados que me aqueciam sempre no mesmo lugar de Inverno ou até mesmo os meus dias inteiros a sublinhar o seu destino.
Nas páginas e páginas que saltitavam naquela secretária havia um homem sentado, corcovado, calvo, cuja silhueta de tanto gritar por mim, acabou no meu peito aconchegada pela origem do meu fôlego.
Miguel Alves
quarta-feira, dezembro 05, 2007
MenteQueVives - A casa dele
No dia que deixei de o conhecer pela boca larga de um jornalista, emagreci o desconhecimento que julgava ter dele e junto à portada, ainda junto à portada, sorrimos. Talvez pela diferença de idades comum mas diferente, talvez pela guitarra portuguesa a lembrar anos verdes, talvez pela cumplicidade da sombra de uma oliveira, naquele momento tanto dele como minha. Com o cheiro a café misturado no açucar da sua conversa, num alpendre interior à sua alma, exterior à casa, conheci uma multidão.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
terça-feira, novembro 27, 2007
MenteQueSentes - Parábolas
que quem não vê não ignora
tantas são as formas
que o mundo tem.
Miguel Alves
segunda-feira, novembro 26, 2007
MenteQueSentes - Procuro livro
Miguel Alves
Palavras também aqui
terça-feira, novembro 20, 2007
MenteQueVives - Partilha da liberdade
O cabelo fechava cada passo como a batida lógica de um coração. Sonhou não ser livre naquele momento. Olhou o chão pintado pelos seus próprios pés e imaginou ter as mãos ocupadas com as outras mãos que um dia encontrou dentro de si.
A luz do dia era cada vez menor mas o espaço ocupado pelo mapa era ainda mais rápido a desaparecer.
Mal perdeu a liberdade deu um tiro no pé e tratou de agravar a pena com alguns excessos que trazia no bolso. Não foi o suficiente nem para compensar o tempo que esteve livre nem para merecer a prisão daqueles braços. Mas na verdade, no momento em que naquele mesmo dia gastou o mapa, já a liberdade estava a ser oferecida a quem ainda achava estar apenas a partilhá-la.
Miguel Alves
sexta-feira, novembro 02, 2007
MenteQueVives - Canto do mundo
Para garantir a união havia corpos que bailavam como searas debaixo do luar, corpos que mantinham o peso morto da consciência longe daquele teatro e soltavam do palco, do canto do mundo, a leveza das suas massas como se fossem feixes de uma luz que não cabia dentro da orquestra.
Miguel Alves
Estas palavras também podem ser lidas aqui
domingo, outubro 21, 2007
quarta-feira, outubro 17, 2007
sexta-feira, setembro 28, 2007
MenteQueSentes - Casa de férias
ficou a carpete
inutilmente memorizada
ficou a amostra
da primeira cartada.
E ficou a moldura da nossa cómoda
mais pesada
levando-nos agora a pensar
na estrada
que tantas vezes reclamou
para também ela ser fotografada.
Miguel Alves
segunda-feira, setembro 24, 2007
MenteQueVives - Cratera na lua
Miguel Alves
segunda-feira, setembro 03, 2007
quarta-feira, agosto 22, 2007
segunda-feira, agosto 13, 2007
MenteQueSentes - Os teus olhos
que quando choram fazem parar a queda do sol sobre o mar
que quando sorriem acompanham a lua na volta de uma vida
que quando olham fazem o cheiro das flores ter imaginação
duplicando o seu desejo de chegar a alguém!
Miguel Alves
quinta-feira, agosto 09, 2007
MenteQueSentes - Mudar
encontrar num dia que ainda não vivi
o abraço que se perdeu.
Mudar para não esquecer
sem querer perder o que ouvi
e me fez cantar.
Mudar porque preciso
tenho ainda luz
tenho outra mão
que se segura na minha estrada
e os dias que faltam
têm de ter uma história para contar.
Miguel Alves
segunda-feira, julho 23, 2007
quarta-feira, julho 18, 2007
MenteQueVives - Gira-discos
Miguel Alves
quinta-feira, julho 05, 2007
MenteQueSentes - Lambedela
e disse-lhe:
“Lambe
lambe com teu pêndulo
o dedal dos momentos.
Lambe
lambe e sacode as vestes e as atitudes
lambe e suga o tempo
fá-lo espevitar esta gente.
Lambe e lambe
sente o tlim tlim
de bicicletas em fuga
o tchim tchim
das bebedeiras fáceis
o tchoque tchoque
de saltos rasos por instinto
e altos por necessidade
o zzz zzz de melgas e banda desenhada.
Lambe
lambe e leva a esperança
pelo menos uma vez mais longe
do que as tardes de Domingo”.
Miguel Alves
segunda-feira, julho 02, 2007
domingo, junho 17, 2007
MenteQueVives - Luz
Haverão de passar horas, dias, anos, sem que os dois percebam o valor daquela luz. Luz que embora não a levem pelo futuro, será por ela que voltarão aquela mesma escadaria, para recuperar carga perdida, sem que dessa vez seja preciso sacudir a areia.
Miguel Alves
terça-feira, junho 05, 2007
MenteQueSentes - Depois
a visita de um poeta.
Trazia o segredo
da minha próxima maré.
A mensagem
guardei-a no peito
junto ao coração
que também me prometeu
guardar tudo aquilo
que daqui em diante
não tiver explicação.
Miguel Alves
quinta-feira, maio 24, 2007
MenteQueSentes - Antes
e recortares o ar
os nossos olhos vão amanhecer
como se tudo o que sabemos
fosse um lugar distante
a aguardar o decalque
dos teus passos.
Miguel Alves
domingo, maio 13, 2007
MenteQueVives - Rio
O barco amparava tudo, com abas de pai, leme de fé e tábuas de ouro. Dava para ver o seu pé, firme, a apontar o caminho a seguir, parecendo ser ele e não a corrente do rio, quem guiava o destino do barco.
O homem com pouca roupa, mas toda justa e arregaçada, lembrava-se de outras correntes daquele mesmo rio. Dias em que passeava nas margens e era dono de pedras, ramos, flores, poças, ausência, fome, futuro. Coisas que podiam ter várias formas mas que para ele era como se nunca mudassem dia após dia. Coisas tão diferentes mas que para ele tinham algo comum. Uma certeza. A de querer encontrar cada uma delas na tarde seguinte para depois de as ver ou sentir, regressar a casa e guardar cada uma numa noite de sonhos. Onde as via a passar, tal como hoje o vi fazer, de rosto erguido e peito abastecido, a levar o barco de visita a um passado que lhe continua a desenhar o leito do rio.
Miguel Alves
quarta-feira, maio 02, 2007
quarta-feira, abril 25, 2007
MenteQueSentes - Cravo vermelho
o jogo de damas a pôr em causa o BI
e o anel de ouro
antes nela agora aqui.
Se não fosse uma janela fardada
soprar o quente dos corpos
sobre flores ainda hoje cheirosas
e o tempo da fachada quase fechada
não teria permitido, naquele jardim
ser descoberta a ciência
com que hoje olha o neto.
Miguel Alves
terça-feira, abril 24, 2007
MenteQueVives - Bocado verde
Na primeira vez que sentiu estar perto de entrar nele, os seus pés embrulharam-se na linha que o individualizava. Ficou parado e rebuscou cada mancha verde, com um olhar apressado. Tão apressado, que rapidamente lhe voou a absurda vontade de saborear, o infinito daquele espaço. Avançou então. Era dentro dele que devia estar, não havia melhor forma de o absorver. Ouviu flores a rir baixinho, um vento cavalheiro a abrandar e a cumprimentar de chapéu no ar e rosto afável, alguns pássaros ainda, a gorjear pelo ar, como ondas de uma mar aguardado.
Perguntou a si próprio porque não havia fotografado ainda nada. A resposta foi imediata. A máquina só iria fazer passar o mundo lá fora, o que parecia ter sido expulso dali. Mesmo sendo imagens daqueles bocados verdes, a moldura que os ia suportar no mundo fora deles, iria esconder tudo aquilo, que lá dentro parecia não ter fim.
quinta-feira, abril 12, 2007
MenteQueProcuras - Velas?
terça-feira, abril 03, 2007
MenteQueSentes - Infinito
A dúvida, o erro, a certeza.
Um padre ainda sem batina
adiando o desejo de alguém.
Um ladrão, alcoólico
esperando o último trago.
Um comboio
ansiando por passar
tantas as vezes
que não o faca roçar nos ramos.
Quem inventou então?
Quem inventou aquela coisa
que as crianças
trazem sempre na mão?
Miguel Alves
quinta-feira, março 29, 2007
terça-feira, março 27, 2007
MenteQueVives - Drive-in
Parou o automóvel, fez descer o vidro lateral e pasmou.
Ela também, mas ela tinha como disfarçar, estava a trabalhar dentro do restaurante. Entre paredes que ora se prostituiam, ora tinham vontade própria, estava imune a piropos ou flirts, melhor ainda, dominava-os.
Uma brisa entrava pelo carro e contornava a cara dele. Ela tinha voado para algo parecido com os bastidores, saiu e dirigiu-se pouco depois, novamente para a parte da frente, talvez de um palco. Sorriu-lhe, ajeitou uns papeis, que ele logo pensou serem pautas de música. E com um dedilhar feminino contudo firme, tocou uma melodia, e que bem soava aquele piano, mesmo da estrada, mesmo dentro de um carro fora do restaurante.
Acabou a música. Foi novamente aos bastidores para regressar desta vez com outro instrumento. Ele já não ouviu mais nenhuma música. “O seu troco!” – foi o que ouviu. Acordou. Deixou de estar pasmado e foi para casa.
Quem lhe dera ter em casa um piano, para em vez de um saco de papel no lugar do pendura, levar aquela deusa. Aquela mulher que lhe pareceu ser tudo, menos aquilo que os meus próprios olhos viram, sempre que ela se desligava dele, para atender o meu pedido.
Miguel Alves
quarta-feira, março 21, 2007
MenteQueSentes - Poesia?
Mario Quintana
segunda-feira, março 19, 2007
MenteQueSentes - Um corpo à espera
na longitude de um desejo
na boca de um poço
onde apenas um balde deambula.
Há um corpo que me espera
nas horas vagas de um desabafo
na frágil jarra
sôfrega por flores
onde uma não morrerá.
Há um corpo que me espera
na imensidão bruta do mundo
na pequeníssima pérola de emoções
onde batem e rebatem relógios
só um está certo.
Miguel Alves
terça-feira, março 13, 2007
MenteQueSentes - Quarenta e duas mais uma
a correr.
Quinze à frente
seis a sonhar
vinte e uma seguiam.
Todas queriam alguém
menos uma
que corria também.
Miguel Alves
quarta-feira, março 07, 2007
terça-feira, fevereiro 27, 2007
MenteQueProcuras - Aquecimento global
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
MenteQueVives - Código Binário
Para além de não deixar o ecrã dormitar, era também importante refrescar o serviço de e-mail e não era com pedras de gelo, talvez o gesto se assemelhe mais ao espetar de um palito no bolo ainda no forno. Uma, duas, três, as vezes necessárias para perceber quando estava pronto. E quando estaria pronto o e-mail? A mensagem electrónica que ficou de chegar naquele dia, por aquelas horas.
Um bocejo, um carinho na franja, um esfregar de olho, um clique refrescante e eis que chega a mensagem. Tão longa como as do costume, quase parecia um desenho, tal o amor que atirava aquelas palavras, amontoadas em bandejas digitais. A protecão de ecrã teimava aparecer, e cada vez mais demorava o antídoto a reagir, a mão no rato já não era um sentinela tão fresco, nem precisava, as ordens eram para ceder.
Finalmente a batalha tinha um vencedor. A mão já nem sequer segurava o rato, os olhos já não seguravam o ecrã, o coração já não segurava as lágrimas e um sorriso tão surpreendente, que não há código binário que o faça pular do imenso mundo, que temos para dar e receber.
domingo, fevereiro 11, 2007
MenteQueSentes - Nascentes
Desliza os dedos no branco analfabeto.
Agora retoca o silêncio
preenche nele as lacunas várias
que no seu apogeu
são inversas às palavras contrárias.
O único sentido comum
entre a cor infiel
e o prazer despercebido
vulgos branco e silêncio
são conotações
corroboradas nas urgências
de hospitais parcos em sensações.
Miguel Alves
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
terça-feira, janeiro 30, 2007
MenteQueSentes - Verbo
te desenhe um mundo
e se algum dos meus dedos
não te chamar
mostra-lhe como fazes um verbo
num momento
em que muitos
usariam um carimbo.
Miguel Alves
domingo, janeiro 28, 2007
quinta-feira, janeiro 25, 2007
MenteQueVives - Escola
A escola nunca o fez voltar para trás mas também não o puxava como a terra áspera da rua onde morava. Nele ainda não era nada, aquela voz que todos os dias dava copos de água a crianças com sede de mar, aquele sino, ora sorridente, ora casmurro, aquele leite achocolatado que não tinha prioridade no campo de futebol improvisado ou até mesmo o colega do lado sempre pronto a emprestar a borracha, sem que isso apagasse depois a marca de uma pedra submissa.
Ainda não era nada a escola naquele corpo de tamanho horário, com sonhos tão espessos que anos depois ainda lhe irão fazer dar passos, mesmo quando o tamanho dessa erosão, se revelar pelo branco que carrega.
Miguel Alves
sábado, janeiro 20, 2007
quinta-feira, janeiro 18, 2007
MenteQueProcuras - Ouvir ou Falar?
segunda-feira, janeiro 15, 2007
MenteQueVives - Sombra
A sua sombra a proteger beijos, era a sua alma, aquilo que usamos sem ver as marcas que deixamos. E era a sombra que o seu corpo mais invejava. O corpo invejava a sua própria sombra. Não era ela que suportava canivetes a anunciar juras de amor eterno, pés ambiciosos por chegar ao fruto mais apetecido, pedras arremessadas sem sentido como parentes de lágrimas imaturas. Não era a sombra que suportava tudo isto. Mas era por tudo isto que se estendia na relva rasa e muitas vezes seca. Era por tudo isto que se entregava à luz, renunciava à vida que esta trazia e se mantinha estendida como um tapete, à espera de estrelas para a percorrerem de dia e com a noite subirem pelo seu corpo.
Miguel Alves
terça-feira, janeiro 09, 2007
MenteQueSentes - O sonho de Mariana
na casa de um chão
um piso qualquer
coberto por uma multidão
escondido ou quase
deixava a Mariana sonhar
era crespúsculo invertido
ou vontade de amar.
Envergonhado e só
irritava Mariana
sem um único inimigo
esperava uma companhia.
E quando a multidão dormiu
abriu-se uma janela
Mariana acenou
e o sentimento dobrou.
Miguel Alves
terça-feira, janeiro 02, 2007
MenteQueSentes - Escultura de areia
grão a grão
desenhada na areia.
As lâminas musculares
cortavam aquele monte artificial
e faziam o olhar de quem passava
sussurrar ao vento
a energia confidencial
de quem se inverte nas horas normais.
Miguel Alves
segunda-feira, dezembro 18, 2006
terça-feira, dezembro 12, 2006
MenteQueVives - Chave
Sacos de plástico a ocupar as mãos, saia inquieta sobre os joelhos, olhos magnetizados por cada ponto de viragem no caminho. Aquela mulher não andava nem voava, não corria nem deslizava. Fugia!
E não era do que deixava para trás, mas do que enfretaria se não fosse fiel, ao tacho que ficou ao lume e ao filme que ficou de guarda a alguém que ainda confunde desenhos com deveres.
Não há máquina que consiga captar o momento em que abriu a porta, sem dar hipótese aos sacos de pesarem demais em mãos ávidas por raptar a chave.
Poucos passos chegaram para receber um aceno do filme e um piscar de olhos do tacho.
Garantiu a ambos que seria a última vez.
A chave atou a porta à parede e guardou mais uma vez toda aquela esperança.
Miguel Alves
segunda-feira, dezembro 04, 2006
MenteQueProcuras - Pancada
- Porque o secador estava a falhar.
- E com a pancada fica a trabalhar é?
segunda-feira, novembro 27, 2006
MenteQueSentes - Proveta
Aquele que usa o tempo
a seu favor
e faz a ciência rodopiar
mostrando ao mundo
que a vida
não tem salas de espera.
Miguel Alves
quarta-feira, novembro 22, 2006
terça-feira, novembro 14, 2006
MenteQueVives - Retrovisor
Vi-a porque tive de sair por aquela estrada. Se meu destino não fosse aquele, provavelmente faria como tantos outros, passava sem abrandar, com a vida encaixilhada em cima de um capot. Ia perder o atrevimento com que me acenou.
Não vi se passou a estrada. Não vi se continuou a apertar a mala de mão. Não vi se sorriu ao ver o meu espanto. Não vi se chegou tarde a casa. E também não vi se tinha fotografias escondidas. Tudo o que consegui ver foi uma menina a rodar a saia, com duas tranças a dar-lhe juizo e as mãos nas ancas a chamar a luz do Sol. Mas talvez não tenha sido bem assim, mesmo que o retrovisor nos mostre sempre o que nos persegue.
Migel Alves
segunda-feira, novembro 13, 2006
MenteQueSentes - Ó Gente da Minha Terra
É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra
Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar
Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi
E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar
Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi
Amália Rodrigues
quinta-feira, novembro 09, 2006
MenteQueVives - Sem espelho
Mal terminou, interagiu com o resto dos objectos como se fossem mensageiros de uma ausência. O interruptor permaneceu parado, tal como antes de entrar. A única luz era interior e era só sua. Ao contrário da imagem que não lhe pertencia e que nem o espelho lhe podia devolver.
Miguel Alves
segunda-feira, novembro 06, 2006
MenteQueSentes - A morada habitual
como uma rua
aconchego para os lados
arena no meio
e sem que os braços
subissem
por qualquer campainha
criou passos
porque nenhuma casa
merece ser a morada habitual.
Miguel Alves















