quarta-feira, novembro 18, 2009

MenteQueVives - Porta de embarque

Deviam ser poucas as pessoas que não saiam dos lugares, temporariamente seus.
As janelas em vidro a percorrer metade das paredes da sala, tiravam fotografias aos estímulos de quem já queria estar lá fora, fazendo parte de um movimento perdido da Terra.
De jornais a revistas, de latas de sumo a telemóveis, tudo cabia na espera, ainda que não fazendo parte dessa mesma espera.
Até que uma voz, com um eco estrangeiro, pegava nas pernas de cada um dos presentes e fazia com que os agora estímulos de outras viagens, invertessem a espera e dessem espaço ao destino, antes de chegarem.

terça-feira, novembro 03, 2009

MenteQueVives - Rua com saída

Abriu a janela como se não visse a rua, à espera.
Alinhou o olhar com o horizonte. O mesmo que a perseguia desde a adolescência, umas vezes espremido pelo bafo do céu, outras mimado pelo brilho do mar. Era por ele que abria a janela.
Eu cá em baixo, continuava a ver uma rua impaciente. Ora parada, ora a saltar. Ora esforçada, ora vidrada.
E ela coninuava serena, a levar para casa uma janela e para a rua, uma saída.

quinta-feira, outubro 15, 2009

MenteQueVives - Viagem solitária (a dois)

No dia que regressasse a casa, iria perceber o título do filme que passara pela televisão
momentos antes de romper a monotonia, com uma viagem ao centro do umbigo dela.

sexta-feira, outubro 09, 2009

MenteQueSentes - Estado leve

É por ti que canto
o que não canto.
E enquanto o faço
é de ti
que saiem as coisas
que no príncipio
não são tudo
nem são nada.
Que pousadas em mim
nesse estado leve
partem para o mundo
levando-me atrás
em bicos dos pés.

quarta-feira, setembro 30, 2009

MenteQueVives - O homem que ninguém vê

Descubra as diferenças:

- Homem de meia idade. Cabelo ondulado grisalho. Óculos rectangulares com as lentes baças. Camisa ás riscas verticais, com a barriga a expulsá-la das calças e as costas a fazer o inverso. Sapatos limpos, mas o direito com o atilho solto. Simpático mas por não por mostrar um sorriso. Solteiro.

- Compra calças de ganga nos hipermercados. Sem dar nas vistas, foge de vendedores de cartões de crédito. Quando compra o jornal começa a lê-lo já depois de o ter deixado bem amachucado. Nas lojas não escolhe nada, porque bastou-lhe fazê-lo uma vez. Antes de sair de casa faz uma festa ao gato e depois de bater a porta, ajeita o tapete com o pé direito.

quarta-feira, setembro 16, 2009

MenteQueSentes - Luta

Juro que tenho tentado.
Tentado escrever palavras que me soltem
palavras que me levem até outro momento, que não seja só meu.
Tento e algo resiste.
Algo que por não ser menos belo decidi colocar aqui
em forma de quase nada.
Uma vez li que quando falta de inspiração também se deve escrever.
Por isso descrevo-a pela primeira vez assim.
Quem ainda não a leu neste texto
não espere lê-la, porque tal como a inspiração
tantas vezes dissimulada numa só palavra
a falta dela já se encontra marcada, algures atrás.

domingo, agosto 02, 2009

MenteQueSentes - Terraço dos sonhos

Se te contasse o meu sonho
talvez percebesses
porque tanto atiro a pedra mais longe do que tu
como a deixo cair, tal como a tua, bem perto da margem.
Talvez percebesses
porque tanto te levanto e deixo tocares o tecto da sala
como te mostro o quão longe ele fica de ti.
Talvez percebesses agora
mas não quero.
Prefiro contar-te tudo
quando a minha pedra permanecer seca
e o tecto da sala
for o terraço dos teus sonhos.

domingo, maio 17, 2009

MenteQueSentes - O início no fim da rua

Caminhava tentando pisar todas as pedras da calçada. Quando se cruza comigo uma voz: “O fim da crise só acontece com uma grande guerra ou uma ditadura!”. Apesar do chapéu de chuva ainda lhe vi o rosto, desafinado. E não percebi porque disse aquilo. A chuva caía igual para os dois, as pedras da calçada eram as mesmas, ambos segurávamos um chapéu de chuva, ainda que de Invernos diferentes. Seria pelos diferentes inícios da rua?
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quinta-feira, março 19, 2009

MenteQueSente - Laços

"Sweet dreams are made of this..."

Uma roupa à nascença
um colo que se preocupa
e que se senta
no chão
outrora um colo
outrora vestido à nascença.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

MenteQueSentes - B.I. Bio

Tenho um bocado de terra
que não sai da minha mão.
Ficou nas rugas
e por mais água que passe
não sai.
Por mais dor que sinta
ao rasparem
ela não sai.
Não sai
e enquanto for assim
não me preocupo
com quem sou.

sábado, fevereiro 14, 2009

MenteQueVives - Ritual do trapézio

Acreditava que para soltar o trapézio, lá em baixo, no meio da multidão, um rosto tinha de a fazer lembrar o primeiro dia que balançou. Tinha de rever o seu sorriso. Rasgado. Iluminado por uns olhos bem abertos e por preencher.
Em noite de espectáculo era sempre assim. A certeza dos aplausos entrava como um pé direito, pelo olhar de alguém ainda com esperança.
Era este imaginário que a deixava soltar um trapézio e agarrar o outro, como se fosse tudo um só gesto.

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quarta-feira, janeiro 21, 2009

MenteQueVives - Paredes infinitas

À noite deitava-se sempre de barriga para baixo. Tinha as paredes do quarto pintadas com cores dadas por alguém. Um poster atrás da porta que ninguém deu, poucos viram e muitos procuravam. No chão coisas apoiadas em pernas ou também deitadas de barriga para baixo. No tecto a certeza que tudo aquilo era visivel mesmo sem a luz do Sol. E tantas coisas a preencher o resto. Tantas coisas dela, que desistiu da ideia de comprar prateleiras ou armários. E não foi por recear não haverem suficientes, foi porque não queria que aquelas coisas ganhassem pó. Aquelas tantas coisas que quando de noite se deitava de barriga para baixo, voavam pela janela e ajudavam a esticar os sonhos até ao dia seguinte. Até ao momento em que lhe chegava outra cor para pintar mais um pedaço de parede.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

MenteQueVives - Não é Natal enquanto espera

A minha avó a preparar filhós e o Natal à espera!

O frio a acender a lareira, a lareira a apagar outras famílias e o Natal à espera!

As luzes na árvore a piscar, não mais que a televisão e o Natal à espera!

O papel de embrulho a esconder o verdadeiro motivo da prenda e o Natal à espera!

É só mandar mais um e-mail... prometo!

terça-feira, novembro 11, 2008

MenteQueVives - O caminho da voz

Era de noite e a voz caminhava, ora negra ora sedutora. Levava do canto daquela sala, o sentimento de cada rosto. Uma taça de tinto juntava a pele á alma. O avental parava sem o silêncio e rebuscava nas palavras o nome de alguém. Talvez de um cliente. O destino de quem conhecia a voz ficava à distância de um fado. A sala estava cheia. Tão cheia, que o som atropelava vidas que os olhares não conseguiam guardar. E dali a voz caminhava, sobre o relevo de um mapa. Solto e á espera do mar.
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terça-feira, outubro 28, 2008

MenteQueVives - Encantado na contagem

Estava sentado na cadeira da varanda quando me lembrei de tentar contar velhos. Ver quantos velhos passavam na rua em frente à minha varanda.
Não demorou muito a passar um com uma boina nova e de blazer da cor da temperatura. Mancava da perna direita e pelos poucos gestos parecia sereno após anos de dedicação. Talvez em excesso.
Demorou a aparecer outro. Uma senhora. Cabelo estranhamente roxo ou estranhamente branco. Mexia na bolsa. Depois de passar percebi que retirava uma prenda. Pelo embrulho era para uma criança. Uma menina. De certeza que era para uma neta, senão tinha esperado até chegar ao destino para retirar a prenda da bolsa.
De imediato cruzaram-se com esta senhora, dois velhos. Lado a lado mas com destinos diferentes. O do lado da estrada mantinha os olhos fixos em qualquer coisa que naquele momento, nada mais era que não um falso objectivo. O outro olhava o chão, quando de repente levantou o olhar na minha direcção. Nada fiz. Mas pareceu que lhe havia tocado na face e rodado o rosto na direcção do outro velho. Percebi que pensava em alguma decisão em tempos mal tomada. Mal acabam de passar estes, vi que outro havia passado do lado de lá da estrada. Vestia um fato de treino e levava um saco do supermercado. Era dia de jogo. Final da taça. O passo apressado e o volume do saco não enganavam. Iria receber o filho para jantar e os dois iam comandar o jogo do sofá. Talvez o filho já o fosse acompanhar no pessimismo, sem que por isso o número de pulsações fosse menor do que em outros tempos.
Ainda tentava perceber se era o filho que se aproximava do velho quando ouvi chamarem-me para jantar. Percebi que não sabia contar... pessoas.

domingo, outubro 12, 2008

MenteQueVives - Branco sensível

A coluna já estava branca. Mas era a sua missão branquea-la ainda mais.
Um escadote, um rolo, um balde de tinta, um carro de supermercado e um par de óculos. Pessoas corriam de um lado para o outro, com malas a estender as suas personalidades. Não viam o artista. Viam uma coluna branca. Já de si branca.
Ele pintava, tocava com o rolo da tinta, pensava na hora de jantar e pintava.
Houve um homem na mesa do café que finalmente reparou no artista. Perguntou-lhe porque pintava de branco uma coluna já de si branca. O artista respondeu que estava a aplicar uma segunda demão e pensou na hora do jantar.
O homem do café já em sua casa, sozinho, foi rever a foto de fim de curso.

domingo, setembro 21, 2008

MenteQueVives - A tabuleta

Uma tabuleta tentava cirandar por cima da porta dos correiros. Presa a duas correntes, paralelas em tudo, aguentava o vento e o sol, a ânsia e o alívio, os passos e os silêncios. Tentava cirandar porque não tinha para onde ir. Tentava cirandar por queria dizer algo.
As letras que lhe calharam concordavam e pareciam querer dizer mais alguma coisa. Não cheguei a concluir.
Entrei. Saí.
Retive-me um pouco do outro lado da estrada, a ver a tabuleta tentar cirandar.
Segurei a carta com a outra mão que não aquela que a apertava quando entrei. Não enviei a carta.
A tabuleta tocou uma melodia com o riso das correntes. Pareceu-me.
Não enviei a carta e suavemente fui desligando a tabuleta. Pensando onde poderia ir eu, agora sim, cirandar.

quinta-feira, setembro 11, 2008

MenteQueVives - O caminho dos golfinhos

Gente, muita gente. A água a reflectir tudo, no brilho, na cor, na expectiva.
Gente, muita gente. E o brilho e a cor da água foram subitamente misturados. Desapareceu a expectaviva. E daquela gente, muita gente, sairam sonhos e viagens.
Os golfinhos não eram muitos, mas tocaram em cada coração daquela gente, muita gente. Sem ninguém esperar vez para que isso acontecesse.
Excepto duas meninas, que não esperaram sequer que fossem os golfinhos a tocar-lhes no coração. Sopraram os seus corações para eles. E a partir daquele momento, já não havia gente, muita gente. Sairam todos. Ficaram apenas as duas meninas, que recolhiam no colo, a água límpida que saltava do caminho dos golfinhos.
Vi uma das meninas misturar lágrimas dos seus dias felizes com aquela água. A outra guardava-a. Para soltá-la quando também soubesse o que é sorrir, com um coração cheio de dias felizes.

MenteQueVes - Procurar o nosso dia


domingo, agosto 17, 2008

MenteQueVives - O carrinho que escolhemos

O puto queria descer a rampa com o carrinho que recebeu este ano. Queria descer tal como tinha feito o ano passado, com o outro carrinho. Desta vez chovia, a erva ao meio era mais pequena, uma das casas tinha uma cor diferente, as pernas dele eram maiores.
Estava decidido, mais até que no ano passado. Apesar de ser a primeira vez que ia descer com aquele carrinho.
O fundo da rampa estava na mesma. Pequeno visto de cima, infinito quando se pisava. Com a confiança de quem evolui, deixou de tocar o chão com o pé e sentiu as costas aumentar. A meio da rampa já não se lembrava do carrinho do ano passado. E foi já parado com sucesso, que voltou a pensar nele, quando sentiu as feridas que tinha nos joelhos.
Porém demorou a perceber, que tinha escolhido o carrinho deste ano, ainda no ano passado.

terça-feira, agosto 05, 2008

MenteQueVives - Desejo tatuado

Não era proibido atirar pensamentos mar adentro. Podia-se sentar e pôr os pés em cima das rochas. Não havia problema em tirar do sítio as areias. Era permitido alimentar o animal que andava à solta dentro dela.
Para não ser reconhecida como adulta bastava-lhe tocar o céu, sempre que uma voz a chamava de uma velha janela destorcida.
Esperava que uma estrela cadente sorrisse ao som dessa voz, para poder tatuar o desejo na manhã seguinte.

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terça-feira, julho 08, 2008

MenteQueSentes - Primeiro brilho

Foi recolhida uma estrela.

Recebeu o brilho que lhe faltava

e não quer voltar a subir.

Não quer perder o céu que encontrou

numa história em que o Sol

anda de mão em mão.

segunda-feira, junho 30, 2008

MenteQueVives - Casa torta

Era a casa mais torta que alguma vez vi. Tinha tinta de um amarelo trocado, janelas e portas com esquadria só de manhã. Por cima o telhado queimado, a lembrar uma camisa por passar. Por baixo o chão que só se endireitava ao longe.
Em volta o jardim ria de tudo aquilo e acenava a cada pessoa que passava. Em especial uma flôr esbranquiçada que nessas alturas fingia até ter raiz na terra do vizinho.
Era a casa mais torta que alguma vez vi, mas pior era não reconhecer sequer uma casa, em pedaços de gente que se fizeram por ali.

terça-feira, junho 24, 2008

MenteQueSentes - ...o livro que eu não li

Anda por aí um livro
não tem nome
mas tem cheiro
e na página seguinte
tem sempre um rosto
que no fim
recolhe a história
e olha para mim.

segunda-feira, junho 16, 2008

MenteQueSentes - O nosso jogo

Quero jogar à bola
mas com vocês
que a bola não sorri
quando a chuto
entre um molho de pernas
que no final
não me vão ajudar
a levantar a taça
que ganhávamos
antes de cada jogo.

sábado, maio 17, 2008

MenteQueSentes - Idade dos muros

Acho melhor abrir uma folha em branco, poisar a tua fotografia na crosta que hoje me chateia. E esperar que no imediato haja sangue ansioso por celebrar dentro de mim, o facto de escrever numa folha A4 sem titulo e sem margens, sem furos e sem agrafos. Uma folha A4, eu, tu e uma névoa a encaminhar-nos para a idade dos muros.

domingo, maio 11, 2008

MenteQueVives - Vício interior

Pela maneira com que não olhava as coisas dava a entender que queria sempre chegar cedo. Não ligou aos jornais, aos poucos ignorou a televisão. Houve momentos que nem parecia estar com roupa.
E pela maneira com que olhava as pessoas dava a entender que queria sair tarde. Conversou, riu-se e sentou-se perto de alguém, e de outro alguém e de outro alguém e de outros. Durante as palavras triunfantes, tocava no ouvinte. Como uma pedra no charco, questionava se a bebida era do agrado do falante.
Tudo se tornou para mim claro, quando nos cruzámos na casa de banho. Vi-o ignorar o espelho e olhar o seu rosto. Olhava fixamente os seus próprios olhos. Que droga tomaria para ser tão viciado no que interessa aos outros, sem que os outros percebessem o interesse que tinha, naquilo que só interessava a ele?

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sexta-feira, abril 25, 2008

MenteQueVives - Lembrança que não fica na parede

O calendário dava motivo de conversa e na mesa a comida dava o sotaque que o vinho ajudava a desembaraçar. Nas paredes escorriam lembranças por relevos de sempre, sem contornarem os adereços de ocasião.
Ela escusava de se mexer para encontrar o ritmo da dança que todos guardavam, mas ninguém ouvia. Em cada fim da mesa, haviam vidas que valiam a pena contar antes de serem engolidas, tal como a mousse de chocolate, enfeitada para o momento.
Houve movimentos normais de uma refeição, mas houve outros que me levaram a uma varanda perto do mar, longe de mim.
Ela sorriu para o empregado que atordoado já não servia, limitava-se a ser parte do sorriso. No momento em que a primeira cadeira começou a arrefecer sem retorno, outras seguiram o processo. Ela não saiu e hoje a lembrança também escorre nos meus dias.

Miguel Alves

sexta-feira, abril 04, 2008

MenteQueSentes - Flôr da confiança

A Flôr sorri
porque sabe que de tarde
vai brilhar com o Sol
sem perder
a protecção da Montanha.

Miguel Alves

sábado, março 08, 2008

MenteQueSentes - A fé dos homens

Um homem constrói uma catedral

e alimenta a sua esperança

com aquilo que não projectou.

Outro constrói um barco

e navega nas àguas

que não encontra perto de casa.



Miguel Alves

quinta-feira, março 06, 2008

MenteQueSentes - Aniversário de um anjo

Hoje é o aniversário de um anjo. Não há prenda nem festa, não há bolo nem velas. Os anjos não precisam de nada disso. Os anjos, como este que hoje faz anos, só querem saber quantas vezes sorrimos. Mesmo hoje em que o sorriso dele é a fonte do próprio dia.

Miguel Alves

terça-feira, março 04, 2008

MenteQueVives - Terreno sem emprego

Podia naquele momento cair no meio da sala o anúncio de um país novo, sem governantes, sem povo, sem ideais nem superstições religiosas, um terreno no meio de outros terrenos, países velhos, com governantes, com povos, com ideais e superstições religiosas. Pelos olhares daquelas pessoas eu podia pôr as mãos no fogo, ainda que de um fósforo, que elas, todas juntas, iriam conseguir construir uma superpotência mundial.
Enquanto o fósforo ardesse eu iria acreditar naqueles olhares a espreitarem oportunidades por ordem alfabética e requisitos por ordem abstracta. Eu iria acreditar que todos iriam saber construir um império, pedra sobre pedra, rua a rua, cidade a cidade e até ao último metro de fronteira, tudo iria fazer sentido. Assim eu via naquelas caras todo esse empreendorismo acumulado.Pensava eu no nome que poderia ter esse país, quando olho a minha senha e reconheço os números que uma voz desumana havia moldado segundos antes. Porque eu quando ali entrei só pensava no fim do expediente da próxima sexta-feira, rapidamente me foi dado o que queria.
Assim que deixei a porta daquela sala, o fósforo apagou-se. Mas a vontade de procurar um pouco de terreno esquecido, reacendeu-se em mim.
Miguel Alves
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sábado, fevereiro 16, 2008

MenteQueVives - À solta

Instrumentos a postos, corpo e alma a envolverem-se como um cocktail. Os olhos procuram as notas musicais perdidas no penteado do dragão de mil cabeças. Luzes, acção. Deixam de haver indivíduos, deixa de haver privacidade, deixa de haver amanhã, deixa de haver vocabulário, deixa de haver hesitação, deixa de haver uma ou outra lei. Um ciclone de som mistura tudo. Acelera, abranda, mantém o ritmo preso a cada coração. A luz assiste e diz que sim a tudo. Acena que sim tantas vezes que deixa de ter personalidade e mal se dá por ela. Três, dois, um. A hora não estava marcada mas o regresso sim. As portas dão lugar a braços. Braços imensos que empurram mas sorriem, cumplices.
Num outro momento tudo será lembrado, ainda que a repetição só seja possivel no sangue que cada um gravou.

Miguel Alves

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

MenteQueSentes - Nuvem

Enquanto dormias, eu era a nuvem que voava nos teus sonhos.
Quanto mais alto voava, mais queria ser a almofada do teu acordar.

Rita & Miguel

terça-feira, janeiro 22, 2008

MenteQueSentes - Crescente

Ri por um
Enquanto te vestes por dois
Manda cartas para três
Fá-las passar por quatro
Surpreende cinco vezes
Imagina seis reacções
Conta sete ondas
Fotografa oito marés
Olha para o relógio às nove
Abraça-te como se não existissem as dez.

Miguel Alves

sexta-feira, janeiro 11, 2008

MenteQueSentes - Partilha

O teu sorriso lindo
a certeza com que trabalho as palavras
e preparo a tua reacção
e o branco
que dividimos ao meio
uma metade para as tuas serpentinas
a outra para os meus espelhos.

Miguel Alves

sexta-feira, janeiro 04, 2008

MenteQueVives - Jardim caído

O jardim estava caído dentro da cidade. Nunca tinha saído daquele sítio, nunca tinha muito menos subido para espreitar o topo dos prédios, nunca tinha sido um qualquer gesto. Mas estava agora caído, e tudo nele estava caído também. As flores que em invernos como este não eram flores mas pelo menos sussurravam ao vento a vontade de o serem, os caminhos que tinham vários fins e que agora restavam-lhes o mesmo ínicio, os candeeiros que diminuiam a electricidade com o glamour das suas formas e que agora tinham nela o único motivo para lá estarem, o portão que tantas vezes viu prevenida a ferrugem já não sabia passar sem esta, sem a cumplicidade de quem chega sem anunciar, deixando-nos depois a vontade de não pensar num anúncio de despedida.
Hoje vi assim o meu jardim. Caído. Amanhã talvez esteja levantado, ou até hoje mesmo, mas por outros olhos.

Miguel Alves

quinta-feira, dezembro 20, 2007

MenteQueVives - Língua de fora

Pôs a língua de fora e correu.
Melhor, limpou a alma do pai com olhos da cor do mundo, ajeitou a roupa torcida, torcendo-a ela. Perguntou ao pai que horas marcava o seu relógio enrugado, ele respondeu que na hora seguinte os espelhos já só lhe iriam afagar o rosto. Ela percebeu e deu dois pinotes. As areias debaixo dos seus sapatos quiseram naquele instante ser as fachadas que nos guardavam da vida de adulto. No fundo só queriam deixar de ser o som da criancice.
No momento em que me viu, pôs então a língua de fora e correu.
O pai continuou a ser pai no sorriso que me atirou. Eu continuei parado, sem saber o limite daquilo que guardei.

Miguel Alves

domingo, dezembro 16, 2007

MenteQueVives - Silhueta

Sentado, corcovado, calvo, a sua silhueta quebrava a claridade da janela e escoava-a para dentro da caneta, diluia-a na tinta e escondia-a no papel. Quando passei, eu de lado, ele de lado, não percebi logo o que fazia.
Não reconheci as noites em branco que me abraçavam de dia, os dedos subornados que me aqueciam sempre no mesmo lugar de Inverno ou até mesmo os meus dias inteiros a sublinhar o seu destino.
Nas páginas e páginas que saltitavam naquela secretária havia um homem sentado, corcovado, calvo, cuja silhueta de tanto gritar por mim, acabou no meu peito aconchegada pela origem do meu fôlego.

Miguel Alves

quarta-feira, dezembro 05, 2007

MenteQueVives - A casa dele

Na casa dele cabiam cabides para casacos dos outros, haviam luzes que economizavam solidão, sabia-se o tempo pelo movimento nas paredes.
No dia que deixei de o conhecer pela boca larga de um jornalista, emagreci o desconhecimento que julgava ter dele e junto à portada, ainda junto à portada, sorrimos. Talvez pela diferença de idades comum mas diferente, talvez pela guitarra portuguesa a lembrar anos verdes, talvez pela cumplicidade da sombra de uma oliveira, naquele momento tanto dele como minha. Com o cheiro a café misturado no açucar da sua conversa, num alpendre interior à sua alma, exterior à casa, conheci uma multidão.
Quando mostrei a minha felicidade já regressava sozinho a outra casa, que também seria dele.
Miguel Alves

terça-feira, novembro 27, 2007

MenteQueSentes - Parábolas

Muitas são as parábolas
que quem não vê não ignora
tantas são as formas
que o mundo tem.

Miguel Alves

segunda-feira, novembro 26, 2007

MenteQueSentes - Procuro livro

Procuro livro com 2,4 cm de espessura, capa dura e sem letras em relevo. O objectivo é nivelar uma mesa de cabeceira e será uma situação temporária, tenciono comprar uma nova. Por isso não uso calços em madeira porque com o livro sempre posso dar-lhe outra utilização, como por exemplo lê-lo. Já agora prefiro evitar biografias por eventuais efeitos secundários na pessoa em questão, livros de viagens por eventuais problemas diplomáticos e livros religiosos porque pode pesar-me na consciência o dobro do que pesa a mesinha de cabeceira. Fico a aguardar sugestões, até lá vou continuar a pousar o copo de água no chão. Para quem tenha ficado curioso, a mesinha de cabeceira ficou manca por ter usado o bocado da perna para servir de suporte no meio de uns livros, numa estante que não é minha.

Miguel Alves

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terça-feira, novembro 20, 2007

MenteQueVives - Partilha da liberdade

Fechou o estaminé. Caminhou livre o tempo que pôde, as crianças em casa logo logo diriam quanto.
O cabelo fechava cada passo como a batida lógica de um coração. Sonhou não ser livre naquele momento. Olhou o chão pintado pelos seus próprios pés e imaginou ter as mãos ocupadas com as outras mãos que um dia encontrou dentro de si.
A luz do dia era cada vez menor mas o espaço ocupado pelo mapa era ainda mais rápido a desaparecer.
Mal perdeu a liberdade deu um tiro no pé e tratou de agravar a pena com alguns excessos que trazia no bolso. Não foi o suficiente nem para compensar o tempo que esteve livre nem para merecer a prisão daqueles braços. Mas na verdade, no momento em que naquele mesmo dia gastou o mapa, já a liberdade estava a ser oferecida a quem ainda achava estar apenas a partilhá-la.

Miguel Alves

sexta-feira, novembro 02, 2007

MenteQueVives - Canto do mundo

Luz que parecia música ou música que parecia luz? Nos corredores, nas bilheteiras, nos balcões, atrás da cortina, em cima do palco, atrás da máquina do algodão doce, de canto em canto recebiam-se a música e a luz sem que fosse possível imaginar uma sem a outra. A nobre distinção de as acolher, recomendava, pelo menos naquele teatro, que ambas se confundissem como a ansiedade e o desejo, o dinheiro e o alívio, os olhos e a imaginação, as mãos e a corda, as tábuas e as sabrinas, o açucar e o corante.
Para garantir a união havia corpos que bailavam como searas debaixo do luar, corpos que mantinham o peso morto da consciência longe daquele teatro e soltavam do palco, do canto do mundo, a leveza das suas massas como se fossem feixes de uma luz que não cabia dentro da orquestra.

Miguel Alves

Estas palavras também podem ser lidas aqui

quarta-feira, outubro 17, 2007

sexta-feira, setembro 28, 2007

MenteQueSentes - Casa de férias

Na partida da casa alugada
ficou a carpete
inutilmente memorizada
ficou a amostra
da primeira cartada.
E ficou a moldura da nossa cómoda
mais pesada
levando-nos agora a pensar
na estrada
que tantas vezes reclamou
para também ela ser fotografada.

Miguel Alves

segunda-feira, setembro 24, 2007

MenteQueVives - Cratera na lua

Havia fumo de uma vida enrolado nos decibéis negros e profundos. Uma vida que não era dele e que não queria que fosse dele. Tudo aquilo que saía de cada corpo se confundia com vidas. Vidas inteiras projectadas como o fumo daquele angustiante cigarro que o rodeava no momento que o vi e agarrei todo cenário. Óculos escuros desnecessários, tatuagens tão falsas quanto verdadeiras, gestos gritantes abafados por nenhuma vontade em os entender.
Vidas inteiras despejadas na noite, de dentro de uma cratera na lua, cubo de cimento onde pessoas davam pernas a livros, centenas de livros por encadernar.

Miguel Alves

quarta-feira, agosto 22, 2007

segunda-feira, agosto 13, 2007

MenteQueSentes - Os teus olhos

O meu brilho é culpa dos teus olhos
que quando choram fazem parar a queda do sol sobre o mar
que quando sorriem acompanham a lua na volta de uma vida
que quando olham fazem o cheiro das flores ter imaginação
duplicando o seu desejo de chegar a alguém!

Miguel Alves

quinta-feira, agosto 09, 2007

MenteQueSentes - Mudar

Mudar porque preciso
encontrar num dia que ainda não vivi
o abraço que se perdeu.
Mudar para não esquecer
sem querer perder o que ouvi
e me fez cantar.
Mudar porque preciso
tenho ainda luz
tenho outra mão
que se segura na minha estrada
e os dias que faltam
têm de ter uma história para contar.

Miguel Alves

quarta-feira, julho 18, 2007

MenteQueVives - Gira-discos

O velho gira-discos ainda toca. Toca nos corações fervidos que percorrem outra vez os corredores de sangue, cada um sempre no sentido de um outro que o saiba segurar.
A música ainda é a mesma e as luzes também. O chão é outro e as mobílias também. Mas só se notam as diferenças se a agulha tremer. Nem vale a pena pensar nisso, nem no mundo novo lá fora. A agulha está firme e cheia de vontade de voar, sem largar o seu chão, onde percorre tantos caminhos quantos os sonhos de cada coração.

Miguel Alves

quinta-feira, julho 05, 2007

MenteQueSentes - Lambedela

Toquei o sino
e disse-lhe:
“Lambe
lambe com teu pêndulo
o dedal dos momentos.
Lambe
lambe e sacode as vestes e as atitudes
lambe e suga o tempo
fá-lo espevitar esta gente.
Lambe e lambe
sente o tlim tlim
de bicicletas em fuga
o tchim tchim
das bebedeiras fáceis
o tchoque tchoque
de saltos rasos por instinto
e altos por necessidade
o zzz zzz de melgas e banda desenhada.
Lambe
lambe e leva a esperança
pelo menos uma vez mais longe
do que as tardes de Domingo”.

Miguel Alves

domingo, junho 17, 2007

MenteQueVives - Luz

A luz do sol descia a escadaria como uma serpente a moldar-se a cada vértice. A luz do sol caminhava em redor do casal de namorados como um cão pastor. A luz do sol chamava àrvores, pedras e ecos, como uma criança depois de consumir tempo com um castelo de areia. A luz do sol aspirava do casal de namorados, coisas como o medo de retribuir uma boca sem sabor. A luz do sol fazia ouvir-se como uma orquestra sem uma língua comum mas ainda assim mais próxima do entendimento. A luz do sol só abandonou a escadaria quando das roupas do casal de namorados saltou areia.
Haverão de passar horas, dias, anos, sem que os dois percebam o valor daquela luz. Luz que embora não a levem pelo futuro, será por ela que voltarão aquela mesma escadaria, para recuperar carga perdida, sem que dessa vez seja preciso sacudir a areia.

Miguel Alves

terça-feira, junho 05, 2007

MenteQueSentes - Depois

Recebi há pouco
a visita de um poeta.
Trazia o segredo
da minha próxima maré.
A mensagem
guardei-a no peito
junto ao coração
que também me prometeu
guardar tudo aquilo
que daqui em diante
não tiver explicação.

Miguel Alves

quinta-feira, maio 24, 2007

MenteQueSentes - Antes

Quando chegares
e recortares o ar
os nossos olhos vão amanhecer
como se tudo o que sabemos
fosse um lugar distante
a aguardar o decalque
dos teus passos.

Miguel Alves

domingo, maio 13, 2007

MenteQueVives - Rio

Furava o rio com o rebuliço de imagens que lhe atravessavam a alma.
O barco amparava tudo, com abas de pai, leme de fé e tábuas de ouro. Dava para ver o seu pé, firme, a apontar o caminho a seguir, parecendo ser ele e não a corrente do rio, quem guiava o destino do barco.
O homem com pouca roupa, mas toda justa e arregaçada, lembrava-se de outras correntes daquele mesmo rio. Dias em que passeava nas margens e era dono de pedras, ramos, flores, poças, ausência, fome, futuro. Coisas que podiam ter várias formas mas que para ele era como se nunca mudassem dia após dia. Coisas tão diferentes mas que para ele tinham algo comum. Uma certeza. A de querer encontrar cada uma delas na tarde seguinte para depois de as ver ou sentir, regressar a casa e guardar cada uma numa noite de sonhos. Onde as via a passar, tal como hoje o vi fazer, de rosto erguido e peito abastecido, a levar o barco de visita a um passado que lhe continua a desenhar o leito do rio.

Miguel Alves

quarta-feira, abril 25, 2007

MenteQueSentes - Cravo vermelho

O canivete e as laranjas
o jogo de damas a pôr em causa o BI
e o anel de ouro
antes nela agora aqui.
Se não fosse uma janela fardada
soprar o quente dos corpos
sobre flores ainda hoje cheirosas
e o tempo da fachada quase fechada
não teria permitido, naquele jardim
ser descoberta a ciência
com que hoje olha o neto.

Miguel Alves

terça-feira, abril 24, 2007

MenteQueVives - Bocado verde

Parecia que tinham entornado o mundo para fora daquele bocado verde. Verde calmo, verde quadrado, verde colorido, verde arrumado, verde espaçoso.
Na primeira vez que sentiu estar perto de entrar nele, os seus pés embrulharam-se na linha que o individualizava. Ficou parado e rebuscou cada mancha verde, com um olhar apressado. Tão apressado, que rapidamente lhe voou a absurda vontade de saborear, o infinito daquele espaço. Avançou então. Era dentro dele que devia estar, não havia melhor forma de o absorver. Ouviu flores a rir baixinho, um vento cavalheiro a abrandar e a cumprimentar de chapéu no ar e rosto afável, alguns pássaros ainda, a gorjear pelo ar, como ondas de uma mar aguardado.
Perguntou a si próprio porque não havia fotografado ainda nada. A resposta foi imediata. A máquina só iria fazer passar o mundo lá fora, o que parecia ter sido expulso dali. Mesmo sendo imagens daqueles bocados verdes, a moldura que os ia suportar no mundo fora deles, iria esconder tudo aquilo, que lá dentro parecia não ter fim.
Miguel Alves

quinta-feira, abril 12, 2007

MenteQueProcuras - Velas?

- Porque é que para acender as velas eléctricas das igrejas, não usamos uma pilha em vez da moeda?

terça-feira, abril 03, 2007

MenteQueSentes - Infinito

Três personagens:
A dúvida, o erro, a certeza.
Um padre ainda sem batina
adiando o desejo de alguém.
Um ladrão, alcoólico
esperando o último trago.
Um comboio
ansiando por passar
tantas as vezes
que não o faca roçar nos ramos.
Quem inventou então?
Quem inventou aquela coisa
que as crianças
trazem sempre na mão?

Miguel Alves

terça-feira, março 27, 2007

MenteQueVives - Drive-in

Era noite mas não o suficiente para o fazer esquecer o dia que passara. Tinha fome, e com esse refrão a zumbir, orientou o volante do automóvel na direcção certa, no caso rumo ao restaurante mais próximo.
Parou o automóvel, fez descer o vidro lateral e pasmou.
Ela também, mas ela tinha como disfarçar, estava a trabalhar dentro do restaurante. Entre paredes que ora se prostituiam, ora tinham vontade própria, estava imune a piropos ou flirts, melhor ainda, dominava-os.
Uma brisa entrava pelo carro e contornava a cara dele. Ela tinha voado para algo parecido com os bastidores, saiu e dirigiu-se pouco depois, novamente para a parte da frente, talvez de um palco. Sorriu-lhe, ajeitou uns papeis, que ele logo pensou serem pautas de música. E com um dedilhar feminino contudo firme, tocou uma melodia, e que bem soava aquele piano, mesmo da estrada, mesmo dentro de um carro fora do restaurante.
Acabou a música. Foi novamente aos bastidores para regressar desta vez com outro instrumento. Ele já não ouviu mais nenhuma música. “O seu troco!” – foi o que ouviu. Acordou. Deixou de estar pasmado e foi para casa.
Quem lhe dera ter em casa um piano, para em vez de um saco de papel no lugar do pendura, levar aquela deusa. Aquela mulher que lhe pareceu ser tudo, menos aquilo que os meus próprios olhos viram, sempre que ela se desligava dele, para atender o meu pedido.

Miguel Alves

quarta-feira, março 21, 2007

MenteQueSentes - Poesia?

"Se alguém te perguntar o quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo..."

Mario Quintana

segunda-feira, março 19, 2007

MenteQueSentes - Um corpo à espera

Há um corpo que me espera
na longitude de um desejo
na boca de um poço
onde apenas um balde deambula.

Há um corpo que me espera
nas horas vagas de um desabafo
na frágil jarra
sôfrega por flores
onde uma não morrerá.

Há um corpo que me espera
na imensidão bruta do mundo
na pequeníssima pérola de emoções
onde batem e rebatem relógios
só um está certo.

Miguel Alves

terça-feira, março 13, 2007

MenteQueSentes - Quarenta e duas mais uma

Eram quarenta e três pessoas
a correr.
Quinze à frente
seis a sonhar
vinte e uma seguiam.
Todas queriam alguém
menos uma
que corria também.

Miguel Alves

terça-feira, fevereiro 27, 2007

MenteQueProcuras - Aquecimento global

- Quem é o mais burro no meio disto tudo? O que sabe mas não quer, ou o que quer mas não sabe? Partindo do príncipio (indiscutivel!) que ambos podem!

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

MenteQueVives - Código Binário

Passavam minutos de uma maneira que pareciam não conseguir construir horas. Na face da rapariga, esperta e silenciosa, só os olhos teimavam não dormir. O ecrã do computador receava até pestanejar, com medo do rato que de forma autoritária empurrava para fora dele uma protecção de ecrã. A mão da rapariga parecia, pois, um treinador de boxe, no canto do ringue a incentivar o seu pupilo, que neste caso ganhava assalto após assalto.
Para além de não deixar o ecrã dormitar, era também importante refrescar o serviço de e-mail e não era com pedras de gelo, talvez o gesto se assemelhe mais ao espetar de um palito no bolo ainda no forno. Uma, duas, três, as vezes necessárias para perceber quando estava pronto. E quando estaria pronto o e-mail? A mensagem electrónica que ficou de chegar naquele dia, por aquelas horas.
Um bocejo, um carinho na franja, um esfregar de olho, um clique refrescante e eis que chega a mensagem. Tão longa como as do costume, quase parecia um desenho, tal o amor que atirava aquelas palavras, amontoadas em bandejas digitais. A protecão de ecrã teimava aparecer, e cada vez mais demorava o antídoto a reagir, a mão no rato já não era um sentinela tão fresco, nem precisava, as ordens eram para ceder.
Finalmente a batalha tinha um vencedor. A mão já nem sequer segurava o rato, os olhos já não seguravam o ecrã, o coração já não segurava as lágrimas e um sorriso tão surpreendente, que não há código binário que o faça pular do imenso mundo, que temos para dar e receber.
Miguel Alves

domingo, fevereiro 11, 2007

MenteQueSentes - Nascentes

Toca o branco.
Desliza os dedos no branco analfabeto.
Agora retoca o silêncio
preenche nele as lacunas várias
que no seu apogeu
são inversas às palavras contrárias.
O único sentido comum
entre a cor infiel
e o prazer despercebido
vulgos branco e silêncio
são conotações
corroboradas nas urgências
de hospitais parcos em sensações.

Miguel Alves

terça-feira, janeiro 30, 2007

MenteQueSentes - Verbo

Deixa que a minha mão
te desenhe um mundo
e se algum dos meus dedos
não te chamar
mostra-lhe como fazes um verbo
num momento
em que muitos
usariam um carimbo.

Miguel Alves

domingo, janeiro 28, 2007

quinta-feira, janeiro 25, 2007

MenteQueVives - Escola

Para ele a casa era grande como a noite mas não tão assustadora. Deixava-o sem a mão do seu farol mas não o fazia tremer como quando debaixo dos lençóis, se escondia do escuro destapado.
A escola nunca o fez voltar para trás mas também não o puxava como a terra áspera da rua onde morava. Nele ainda não era nada, aquela voz que todos os dias dava copos de água a crianças com sede de mar, aquele sino, ora sorridente, ora casmurro, aquele leite achocolatado que não tinha prioridade no campo de futebol improvisado ou até mesmo o colega do lado sempre pronto a emprestar a borracha, sem que isso apagasse depois a marca de uma pedra submissa.
Ainda não era nada a escola naquele corpo de tamanho horário, com sonhos tão espessos que anos depois ainda lhe irão fazer dar passos, mesmo quando o tamanho dessa erosão, se revelar pelo branco que carrega.

Miguel Alves

quinta-feira, janeiro 18, 2007

MenteQueProcuras - Ouvir ou Falar?

- O que apareceu primeiro? O acto de ouvir ou o de falar? É que em algumas coisas a antiguidade devia prevalecer, não?

segunda-feira, janeiro 15, 2007

MenteQueVives - Sombra

Passava o tempo amarrada ao chão, com o cabelo solto e perfumado.
A sua sombra a proteger beijos, era a sua alma, aquilo que usamos sem ver as marcas que deixamos. E era a sombra que o seu corpo mais invejava. O corpo invejava a sua própria sombra. Não era ela que suportava canivetes a anunciar juras de amor eterno, pés ambiciosos por chegar ao fruto mais apetecido, pedras arremessadas sem sentido como parentes de lágrimas imaturas. Não era a sombra que suportava tudo isto. Mas era por tudo isto que se estendia na relva rasa e muitas vezes seca. Era por tudo isto que se entregava à luz, renunciava à vida que esta trazia e se mantinha estendida como um tapete, à espera de estrelas para a percorrerem de dia e com a noite subirem pelo seu corpo.

Miguel Alves

terça-feira, janeiro 09, 2007

MenteQueSentes - O sonho de Mariana

Sentimento guardado
na casa de um chão
um piso qualquer
coberto por uma multidão
escondido ou quase
deixava a Mariana sonhar
era crespúsculo invertido
ou vontade de amar.
Envergonhado e só
irritava Mariana
sem um único inimigo
esperava uma companhia.
E quando a multidão dormiu
abriu-se uma janela
Mariana acenou
e o sentimento dobrou.

Miguel Alves

terça-feira, janeiro 02, 2007

MenteQueSentes - Escultura de areia

A bravura estava lá
grão a grão
desenhada na areia.
As lâminas musculares
cortavam aquele monte artificial
e faziam o olhar de quem passava
sussurrar ao vento
a energia confidencial
de quem se inverte nas horas normais.

Miguel Alves

terça-feira, dezembro 12, 2006

MenteQueVives - Chave

Os passos acelerados, denunciavam minutos curtos, para um tempo que se confundia com a distância ainda por percorrer.
Sacos de plástico a ocupar as mãos, saia inquieta sobre os joelhos, olhos magnetizados por cada ponto de viragem no caminho. Aquela mulher não andava nem voava, não corria nem deslizava. Fugia!
E não era do que deixava para trás, mas do que enfretaria se não fosse fiel, ao tacho que ficou ao lume e ao filme que ficou de guarda a alguém que ainda confunde desenhos com deveres.
Não há máquina que consiga captar o momento em que abriu a porta, sem dar hipótese aos sacos de pesarem demais em mãos ávidas por raptar a chave.
Poucos passos chegaram para receber um aceno do filme e um piscar de olhos do tacho.
Garantiu a ambos que seria a última vez.
A chave atou a porta à parede e guardou mais uma vez toda aquela esperança.

Miguel Alves

segunda-feira, dezembro 04, 2006

MenteQueProcuras - Pancada

- Porque é aquele senhor estava a bater no secador de mãos?
- Porque o secador estava a falhar.
- E com a pancada fica a trabalhar é?

segunda-feira, novembro 27, 2006

MenteQueSentes - Proveta

Nasceu o malabarista.
Aquele que usa o tempo
a seu favor
e faz a ciência rodopiar
mostrando ao mundo
que a vida
não tem salas de espera.

Miguel Alves

terça-feira, novembro 14, 2006

MenteQueVives - Retrovisor

Não era suposto a senhora estar ali. Era uma via rápida. Não só passavam carros como passavam sem perceberem o que deixavam para trás. Estava vestida de negro, um negro fundo onde a luz do Sol se partia e fazia crescer as rugas.
Vi-a porque tive de sair por aquela estrada. Se meu destino não fosse aquele, provavelmente faria como tantos outros, passava sem abrandar, com a vida encaixilhada em cima de um capot. Ia perder o atrevimento com que me acenou.
Não vi se passou a estrada. Não vi se continuou a apertar a mala de mão. Não vi se sorriu ao ver o meu espanto. Não vi se chegou tarde a casa. E também não vi se tinha fotografias escondidas. Tudo o que consegui ver foi uma menina a rodar a saia, com duas tranças a dar-lhe juizo e as mãos nas ancas a chamar a luz do Sol. Mas talvez não tenha sido bem assim, mesmo que o retrovisor nos mostre sempre o que nos persegue.

Migel Alves

segunda-feira, novembro 13, 2006

MenteQueSentes - Ó Gente da Minha Terra

(Há dias tão bonitos que a nossa alma merece um fado... assim...)

É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi

E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi

Amália Rodrigues

quinta-feira, novembro 09, 2006

MenteQueVives - Sem espelho

O espelho não estava embaciado. Não pela falta de reacção quimica, mas pelo que não reflectia. O arranhar de lâmina a escanhoar o pelo, era impresso na perfeição como uma lista de compras, desejos. Não estava nú nem podia estar, com tanta pressa em acabar o aprumo matinal.
Mal terminou, interagiu com o resto dos objectos como se fossem mensageiros de uma ausência. O interruptor permaneceu parado, tal como antes de entrar. A única luz era interior e era só sua. Ao contrário da imagem que não lhe pertencia e que nem o espelho lhe podia devolver.

Miguel Alves

segunda-feira, novembro 06, 2006

MenteQueSentes - A morada habitual

Rasgou o momento
como uma rua
aconchego para os lados
arena no meio
e sem que os braços
subissem
por qualquer campainha
criou passos
porque nenhuma casa
merece ser a morada habitual.

Miguel Alves