quarta-feira, setembro 26, 2012

MenteQueSentes - Album de recordações

Em cima dos degraus não havia pés
nem da porta caía areia.
Ainda assim,
as pessoas não paravam de entrar
ao ritmo de quem agora tem tempo
para trazer coisas de volta.

domingo, agosto 05, 2012

MenteQueVives - Acento no orgulho

Pediu-me ajuda para se sentar junto a mim no degrau. Com a minha mão apertei-lhe o antebraço e ele confiou no amparo. O seu corpo não escondeu a dificuldade de movimentos, e levou-me a pensar como iria levantar-se se eu já ali não estivesse. Ele percebeu e adiantou a resposta com o acento igual ao orgulho que tinha desenhado no rosto. Disse-me, que preferia ter apenas o conforto de alguém durante a queda, do que herdar o mérito de se erguer. E reforçou, que se assim não fosse seria o princípio para cair sozinho.
Vim-me embora mais cedo porque quis garantir que seria mesmo assim e que iria trazer comigo aquele pedaço de vida, intacto, genuíno. Talvez um dia viesse a precisar dele.

quinta-feira, julho 26, 2012

MenteQueSentes - Arte de ser avô

A arte de ser avô
está escondida no riso dos netos
no abraço pequenino que nunca acaba
nos olhos que contrariam a idade
e voltam a ter espaço
para guardar coisas

segunda-feira, julho 02, 2012

MenteQueSentes - Planeta inventado


Mamã, Papá
hoje na minha escola inventámos um planeta
nele riscámos o céu e ficou lindo
sujámos as mãos e elas procuraram outras
criámos castelos para visitar quando formos adultos
e soltámos gargalhadas que trago no bolso.
Ah e decidimos que as horas eram só a fingir
tal como aquilo que vocês usam como desculpa
para não inventarem mais planetas.

quarta-feira, junho 13, 2012

MenteQueSentes - A chamada

Não senti a chamada.
O mundo preencheu-me
as horas encavalitaram-se
os sons fundiram-se.
Agora, agradeço à magia
o lápis de cera por estrear
limpo como o inicio
presente como um liço
alinhado como o chão.



sexta-feira, maio 11, 2012

MenteQueSentes - Morreu o outro lado da mão

Não foste tu que morreste
foram as teclas do piano
foi o outro lado da tua mão
foram os recados do teu corpo
foi o banco, o silêncio, o aroma
todas essas coisas
que se guardam para amanhã.
Não foste tu que morreste
estás aí a tocar
e eu estou aqui a viajar
pela ponta dos teus dedos.

(a Bernardo Sassetti 1970 - 2012)


sexta-feira, maio 04, 2012

MenteQueSentes - Mapa da chuva

Enquanto há chuva
porque não começarmos uma viagem
enquanto ela se debruça sobre o mapa?

quarta-feira, abril 25, 2012

MenteQueSentes - O porquê

O "porquê"
sai, espeta-se e dobra o medo.
Mas não tem de magoar.
Rompe com o passado
e na vertigem que recebemos
voltamos a atirar os dados.

Só isso.


terça-feira, abril 17, 2012

sábado, março 31, 2012

MenteQueSentes - Dez passos

Um, dois, três passos
na direcção de uma outra morada
na sequência das pedras
por cima de outros caminhos.

Quatro, cinco, seis passos
a confirmar os três primeiros
a precipitar um novo rasto
e não há verbo que me faça parar.

Sete, oito, nove passos
se houvessem dúvidas, estaria descalço
sem fraquezas não há escusas
e foi assim que sai de casa.

Dez passos
cheguei e renasci.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

MenteQueVives - O sorriso que se passa

A mais velha baixou-se para ver melhor o caderno aberto pela mais nova. Não percebi se o sorriso da mais velha era de ternura pela resposta fácil que teria. Ou se era para dar confiança a uma dúvida, multiplicada pelas borbulhas no rosto da mais nova.
Não cheguei a perceber, porque entretanto terminei de contornar a rotunda. Mais uma a caminho de qualquer coisa.
Mas foi fácil imaginar as borbulhas a desaparecerem, quando junto dos colegas o caderno foi novamente aberto. E entre a explicação de tudo, apareceu para sempre, o sorriso da mais velha na boca da mais nova.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

MenteQueSentes - Pinheiro

Entra, desvia-te do pinheiro mas não o ignores.
Senta-te.
Se não perceberes a letra das músicas, ouve pelos menos os sinos.
Imagina uma noite branca, onde a família passeia por ela,
chegando mesmo a parecerem violentas as marcas dos seus passos.
Mas não o são, de todo.
São gestos de cheios de certezas.
Amanhã cada um leva para casa um embrulho
que se vai partilhando durante todo o ano.
À medida que se aproxima o próximo Natal
ainda é no frio que se fala e por telefone.
O calor vem depois e fica espalhado pelo pinheiro.
Esse mesmo que quase pisavas.



quarta-feira, dezembro 21, 2011

MenteQueSentes - A cor que vejo

O vermelho que trazes
explode em mim
e na contestação que gera
os meus sentidos acabam rendidos
e tornam o meu sangue daltónico.
Para o bem
prefiro trocar tudo e viver o sonho.

domingo, novembro 13, 2011

MenteQueSentes - Daqui

Daqui
assim
pareces o meu mundo
e metade
de outra coisa qualquer

MenteQueSentes - Vidas por comprar

Nas lojas onde entro
há sempre alguém que me faz falta.
Não que queira levá-las comigo
mas ganhei o hábito de pensar
nas vidas que não vou comprar.

sexta-feira, novembro 04, 2011

MenteQueSentes - Borboletas

As borboletas no estômago
são os teus sorrisos de criança
a lembrar o resto do corpo
que há amor, que há esperança

e se uma delas te fugir
não a chames, não a censures
foi o impulso de quem te quer sentir

quem a ensinou a sonhar

mas só a sonhar

só a sonhar

ainda que tudo seja verdadeiro.

quinta-feira, novembro 03, 2011

MenteQueSentes - Aquelas coisas

Há coisas que me ensinaste
que vão ficar só para mim.
Sei que vão mastigar-me,
engolir-me, engordar-me.
Mas vão ser aquelas coisas
que garantem
um lugar para chegar.

quinta-feira, outubro 27, 2011

MenteQueSentes - Lista de Supermercado

Em falta:
cereais com sabor a mar, para o teu acordar de destino livre e grandioso
doce de frutas enamoradas, para ajudar a manter o sorriso que nos une
pão de forma sem forma, vamos continuar a deixar todos os contornos de lado
sumo 100% magicados, para acompanhar as nossas conversas de balão
gel de banho com o cheiro de amanhã, assim prolongamos o aroma que deixamos à despedida
vinho de castas virgens, porque cada brinde nosso é único
manta de tecido vistoso, para não se perder nos teus ombros
incenso consumido, nós saberemos como ateá-lo.

quinta-feira, setembro 29, 2011

MenteQueSentes - Silêncio

Descobri que o silêncio às vezes é bandeira, às vezes é vento e às vezes é o lugar onde ficou por colocar o mastro.
E descobri também, que só o devo partilhar, com quem conhece as cores dos meus ideais, da minha nação.

quarta-feira, julho 20, 2011

MenteQueSentes - Fado no centro comercial

Houve fado no centro comercial.
E aquele som
que solta a definição
dos olhares
não podia estar noutro sítio melhor
para nos ajudar a distinguir
quem sente os momentos
de quem os contabiliza.

sexta-feira, julho 08, 2011

MenteQueSentes - Ida e volta

Eu parto à vontade
sei que a língua que falo
se fala por aí
que o tempo que levo
me vai trazer de volta
e na procura que encontrei
tudo começa em mim.

sábado, maio 14, 2011

MenteQueSentes - Piscina, Lda

Há uma piscina onde nadamos
mas não mandamos

onde o vil da água

é quase transparente.

Salpicam dores quando saímos

e resistem vozes quando teimamos

tocar no fundo

sem a promessa de voltarmos.

terça-feira, abril 05, 2011

MenteQueVives - Música no Aeroporto

O homem largou os dedos nas cordas da guitarra e juntos assumiram o destino das viagens. E os dedos gravaram tudo. A sangue frio cortaram os pensamentos de todos. A música irradiou pelas janelas absortas, pelo chão submisso, pelo ar extasiado, pelas portas. Pelas portas que não abriam, pelas portas que se fechavam, pelas portas que não existam mas faziam as pessoas recuar.

Foi admirável ver o incómodo de quem não pediu música. Foi admirável ver o ódio de quem naquele momento não queria sonhar. De quem nunca está preparado e traz aquelas roupas que só vestem em público.

Ri-me tanto. Tanto que tive de parar de dançar. Sentei-me no chão e deixei-te só a ti a rodopiar e a desafiar os hábitos.

Quando os dedos do homem pararam, a guitarra olhou para ti. Foram os ciúmes mais cruéis que alguma vez tive.

domingo, fevereiro 13, 2011

MenteQueSentes - No Guns can kill

Shoot


with your fingers


Cry

(only)
through your heart

Pray


like you have no religion


Die


as if you had a gun

quarta-feira, novembro 10, 2010

MenteQueVives - O miúdo do comboio

A marcha do comboio não enganava. Seguia em frente. Avançava.
Levava gente dentro. Alguém parecendo não estar satisfeito, caminhava. Seguia em frente. Avançava. E fazia-o para lá e para cá. Como se o limite de cada ponta do comboio fosse o inicio de mais uma caminhada.
Nas horas que durou a viagem não o vi cruzar olhares com ninguém. Fitava qualquer coisa dentro ou fora dele. E caminhava. Seguia em frente. Avançava.
Confesso que de ínicio me aborreceu. A mim e percebi que a todos os que se mantinham sentados. A seguir em frente. A avançar.
Desisti do desconforto assim que percebi a imunidade dele. Ele podia fazer aquilo. Talvez até devesse mesmo fazê-lo. Era miúdo e podia. Era miúdo e devia.
Devia seguir em frente. Devia avançar. Mesmo dentro do comboio e este a fazê-lo também.
Mesmo quando tinha de inverter a marcha parecendo voltar para trás, o comboio seguia em frente. Avançava. E ele também. Iludido, seguia em frente. Avançava.

sexta-feira, novembro 05, 2010

MenteQueVives - Cinema vagabundo

Quis ir ao cinema. Mesmo que para isso lhe bastasse descer um degrau, quis fazer o que os outros fazem. Os outros que não precisam descer o degrau. Os que descem na horizontal falsa do elevador.
Então antes de se mexer para o cinema, encostou bem o cabelo ao crânio, tirou um cachecol do saco de plástico e deixou no mármore a cama pronta até ao regresso.
Desceu o degrau.
Sentou-se novamente e esperou o ínicio do filme. E o filme iniciou-se tantas vezes que lhes perdeu a conta. Havia prémios a serem atribuidos aos actores e actrizes logo após as primeiras cenas. Ninguém mudava o guarda roupa. Ninguém tinha decorado os textos.
E ele pensou que chegava de sonhar com a vida real. Voltou a subir o degrau e realizou o seu filme. E para isso muito contribuiram, as letras das folhas de jornal que o cobriam.

quarta-feira, outubro 27, 2010

MenteQueVives - Na pose do dia

O dia dava sinais de dormência.
Fazia aquela pose, que julgo muitas vezes, fazer parar o tempo para que possa ser admirado.
O Sol destacava-se do cenário e fazia com que o rio empurrasse a luz dela contra ele.
A água fluía. E os olhares deles também. Pássaros voavam. E os pensamentos deles também.
Haviam passos a fazer-se ouvir. E os gestos deles escutavam.
À parte dos copos vazios, naquela mesa tudo transbordava alguma coisa.
E tudo havia por dentro. E tudo se criava por fora.

terça-feira, outubro 05, 2010

MenteQueSentes - Quando volto

Volto

quando falo contigo
e nao te vejo

quando reajo tarde
ao que me dizes

quando perco tudo
para pensar em cores

quando solto alguém
que não sobrevive
ao tom de voz
em falta
quando só tentas aparecer.

sexta-feira, setembro 24, 2010

MenteQueSentes - Respiro

E o Sol apareceu
todas as pessoas ficaram bonitas
o café trouxe o toque da tua pele
e tenho a certeza
que uma parte de ti me pertence
porque respiro.

quarta-feira, setembro 22, 2010

MenteQueSentes - Cinzento

Nunca gostei do cinzento!
Ainda que seja a cor onde agora te encontro
onde viajamos num pincel
que mistura o encontro e a saudade
e no regresso
nos deixa sempre nessa tonalidade por afirmar.

Nunca gostei do cinzento!
E porque agora
desespero por aprender a gostar
preciso que me ajudes a relembrar
como se põe uma mão
fora do comboio negro
e se toca na brancura das nuvens.

segunda-feira, agosto 09, 2010

MenteQueVives - A casa da rua

Saíram de casa e assumiram estar na rua.
Ignoraram ter morada. E mais do que isso esqueceram o caminho para casa.
Pularam nas primeiras poças, com o entusiasmo de quem não sabe para que servem as coisas, que nos fazem sentir bem. Escolheram frutas de árvores há muito esquecidas, que por isso conservavam o gozo natural de pecar. Lembraram jogos, dos tempos em que as apostas eram trocadas no intervalo da tabuada.
Quiseram viver para sempre. E fizeram-no. Ali na rua.
Debaixo dos astros e da roupa lavada.
Por cima dos passos e das sombras escondidas.

sexta-feira, julho 30, 2010

MenteQueSentes - Abraçar o mar

Seguia a estrada como um cavalo nocturno.
A galope nas perguntas. A trote nos impulsos.
Abrandou com o brilho da lua no mar, e dançou.
Pisou a areia, e amou.
Tocou o mar, e abraçou-o.
Conversou com a lua.
Durou uma hora
das que no final o fazem chorar.
Ela sorriu.
Acalmou-o.
-Sossega. Amanhã virá o Sol e com o ele a minha presença. O meu calor.

MenteQueSentes - Força que nunca seca

Há um pássaro feliz que canta.
Há uma flor, linda, que não desmaia.
E procuro mais.
Nesta aguarela sem tema
há mais pedaços de história
para comprovar
a força
do beijo que se evita
e que nunca seca.

quinta-feira, julho 29, 2010

MenteQueVives - Viagem de helicóptero ao mundo da fada e do poeta

Não eram só dois corpos na multidão. Eram também, tudo aquilo que se pode beber quando um olhar nos aquece ou uma palavra nos despe. E eram tudo isso a dobrar. Porque esticavam os umbigos, para dentro da circunferência que inventaram. Naquele momento que os vi, andavam livres. A correr e a rir. Pareceu-me até vê-los dançar ao ritmo de uma lua cheia.
Quando me viram, sorriram e mostraram-me os limites daquele mundo de fada e poeta. A fada distraiu-se com a voz de um miúdo e o poeta piscou-me o olho. Levantou parte da circunferência explicando-me que ambos estavam a preparar uma fuga. Sem dia nem hora marcada. Mas que não queriam deixar de planear.

terça-feira, julho 27, 2010

MenteQueSentes - Resposta ao conforto das tuas asas

Confesso
esta noite não vi a lua!
Tentei!
Tentei e tentei!
Mas o teu sorriso era maior.
Inquieto
partilhei o meu.
Amanhã saberemos o que conversaram
nem que tenhamos de pular de nuvem em nuvem
a nossa palavra
tem de estar no Universo.

terça-feira, maio 18, 2010

MenteQueSentes - Regresso a casa

O formato das nuvens era tantas vezes diferente
que preferia olhá-las, em vez de voltar a pisar o mesmo chão.

sábado, abril 24, 2010

MenteQueSentes - Aprender a comer

Temos os risos de cinema
no momento certo, os prolongados
e o corredor
onde distinguimos vidas
pelo tamanho da roupa.
Só no momento em que acertármos
na quantidade da nossa comida
poderemos receber visitas
por o nosso filme na sala
e ouvir risos
sem nos lembrarmos da roupa.

segunda-feira, abril 12, 2010

MenteQueVives - Terra natal

Enquanto fazia deslizar a pedra branca de forma a comer uma pedra preta, na jogada seguinte.
Enquanto marcava um sorriso no rosto, sem esforço.
Enquanto olhava o neto como quem sopra uma semente da palma da mão.
Sabia que tinha chegado à terra natal que descobriu esquina a esquina, cheiro a cheiro, reflexo a reflexo.
Chegara à terra natal de onde nunca quis verdadeiramente sair. Que quando o fez pediu perdão, como quem traiu a única pessoa capaz de prender o príncipio de tudo, com tudo aquilo que quisermos descobrir.

sábado, abril 03, 2010

MenteQueVives - Atracção dos corpos

Deu quatro passos apressados desde a porta de casa até ao limite do passeio. Fê-lo com a mão sobre a testa, como uma pala. Percebia-se a aflição em não deixar o passado tapar-lhe a visão.
Olhou a curva da estrada tantas vezes que parecia fazê-lo de forma contínua. Queria tanto ver o seu alguém aparecer que eram as horas que tinham de passar-lhe em frente ao rosto, e não este ir em busca dessa marca. Assim ficou, à espera.
Para mim a curva fez-se recta. As suas horas em mim ficaram feitas em segundos. Por cada um que passava era mais um reforço na traição que o meu carro, bocado inerte de mim, dava naquele desejo de ser a lei da física que punha por escrito a atracção dos corpos.

segunda-feira, março 22, 2010

MenteQueVives - Meu lugar

Nem sempre me sento no meu lugar. E sinceramente já perdi a conta das vezes que não o fiz. Mas as vezes que o cedi, essas lembro-me de todas. Foram três.
A primeira foi a uma senhora. Para agradecer leu-me a sina na palma da mão. Disse duas ou três coisas óbvias e outras tantas rebuscadas que nunca vou saber se foram certeiras. Esqueci-me. Esqueço sempre do que me querem impor.
A segunda vez foi a um cego. Agradeceu e pediu-me que descrevesse como estava o dia la fora. Perguntei-lhe se alguma vez tinha tido visão. Respondeu que sim. Disse-lhe, então, que estava igualmente bonito ao último dia que recorda e que nunca mais tinha havido melhor.
A terceira e última, foi a um senhor de bengala que abandonou o lugar antes da minha estação. Ao sair agradeceu e disse-me para nunca deixar de chamar "Meu lugar" ao lugar que escolho e que nunca devia cedê-lo, a quem nem sequer tenta encontrar o seu.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

MenteQueSentes - O brilho que deixas

O teu olhar deixa em mim a certeza

de que há brilho

capaz de transformar

os dias em viagens

e as noites em fortunas.

domingo, fevereiro 14, 2010

MenteQueSentes - Namorada

Nunca procurei no dicionário o significado da palavra namorada. Quando precisei de saber já tu estavas a meu lado. A tua essência é a única definição que sei. E duvido que haja outra melhor.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

MenteQueVives - Medalha dourada

Caminhava sem saber que também procurava algo com os pontapés que dava no ar. Pequenos pontapés.


Talvez pelo som, talvez pelo brilho, talvez por um arrepio, notou naquele momento, que havia uma medalha dourada a querer entrar na sua vida. Guardou a medalha e um sorriso, não sabendo ainda que um dia não iam caber os dois dentro dela.


Passou o tempo. O suficiente para perceber que havia um leão marcado na medalha, que já estava marcado na sua pele. O relevo daquele momento, vivido anos antes, era já muito grande e não podia esperar mais. Não podia guardar mais aquele sorriso, ansioso por de uma vez por todas dar-lhe a mão e mostrar-lhe que era o signo da vida que aqueles pequenos pontapés tinham encontrado.




(Para a Bela e Hugo)

sábado, janeiro 23, 2010

MenteQueSentes - Gostar por defeito

Fosse como fosse
chegaria entre as suas pratas e pétalas
chegaria livre de um fim
poderia ser cúmplice e ser único
e mesmo assim
chegaria antes da hora
marcada pelos pulsos dos relógios.

Fosse como fosse
chegaria entre as suas pratas e pétalas
chegaria livre de um fim
poderia ser atacado de gaiolas ou janelas
e mesmo assim
não se esqueceria
que antes de chegar
por defeito iria gostar.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

MenteQueSentes - Frutos

Preferia
que os teus lábios prendessem
como beijam as tuas mãos
assim haveriam frutos
que percorriam
o vazio do meu corpo
só para os molhar
em vez de os apanhares
já secos do chão.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

MenteQueSentes - Universo sem explicação

Não sei o que me dizer
quando sei que sou só
eu e o meu universo.
Não sei o que dizer
a quem sabe que o habita
tal como um satélite
mas que não partilha
com outros dois
a triangulção
dos meus caminhos.

Não sei.

Não sei.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

MenteQueSentes - O nosso mundo também é redondo

Deu para perceber que era habitual ir aquele café.
Percebia-se isso pela maneira que não olhava as coisas.
Sentada no assento redondo da cadeira,
braços apoiados no tampo redondo da mesa,
lábios ansiando tocar a face redonda da chávena.
Redondo era também o sorriso.
Redondo era também o olhar.
Redondo era também o cheiro.
E redondo era o seu passado
que rebolava com ela sempre que abria aquela porta.

terça-feira, dezembro 01, 2009

MenteQueVives - Atrás dos faróis

A mochila e o saco a tiracolo pareciam pesar mais dos que os pensamentos. Cada passo dado, um pouco mais de conforto. Dia de semana, a escola toda metida na mochila e no saco, e o quarto à espera de o ver tirar a roupa e vestir os brinquedos. Que estariam em pausa desde o último mundo que criou.
Parou para atravessar a estrada, inundada de faróis de carros e frio. Um carro parou, outro parou ao lado e ele atravessou. Fê-lo como se já estivesse a contar para os trabalhos de casa.
Quando o deixei de ver lembrei-me do meu caminho para casa depois da escola. Só não me lembro do que levava na mochila e no saco, mas em muitas dessas viagens lembro-me de querer estar parado, atrás dos faróis.

quarta-feira, novembro 18, 2009

MenteQueVives - Porta de embarque

Deviam ser poucas as pessoas que não saiam dos lugares, temporariamente seus.
As janelas em vidro a percorrer metade das paredes da sala, tiravam fotografias aos estímulos de quem já queria estar lá fora, fazendo parte de um movimento perdido da Terra.
De jornais a revistas, de latas de sumo a telemóveis, tudo cabia na espera, ainda que não fazendo parte dessa mesma espera.
Até que uma voz, com um eco estrangeiro, pegava nas pernas de cada um dos presentes e fazia com que os agora estímulos de outras viagens, invertessem a espera e dessem espaço ao destino, antes de chegarem.

terça-feira, novembro 03, 2009

MenteQueVives - Rua com saída

Abriu a janela como se não visse a rua, à espera.
Alinhou o olhar com o horizonte. O mesmo que a perseguia desde a adolescência, umas vezes espremido pelo bafo do céu, outras mimado pelo brilho do mar. Era por ele que abria a janela.
Eu cá em baixo, continuava a ver uma rua impaciente. Ora parada, ora a saltar. Ora esforçada, ora vidrada.
E ela coninuava serena, a levar para casa uma janela e para a rua, uma saída.

quinta-feira, outubro 15, 2009

MenteQueVives - Viagem solitária (a dois)

No dia que regressasse a casa, iria perceber o título do filme que passara pela televisão
momentos antes de romper a monotonia, com uma viagem ao centro do umbigo dela.

sexta-feira, outubro 09, 2009

MenteQueSentes - Estado leve

É por ti que canto
o que não canto.
E enquanto o faço
é de ti
que saiem as coisas
que no príncipio
não são tudo
nem são nada.
Que pousadas em mim
nesse estado leve
partem para o mundo
levando-me atrás
em bicos dos pés.

quarta-feira, setembro 30, 2009

MenteQueVives - O homem que ninguém vê

Descubra as diferenças:

- Homem de meia idade. Cabelo ondulado grisalho. Óculos rectangulares com as lentes baças. Camisa ás riscas verticais, com a barriga a expulsá-la das calças e as costas a fazer o inverso. Sapatos limpos, mas o direito com o atilho solto. Simpático mas por não por mostrar um sorriso. Solteiro.

- Compra calças de ganga nos hipermercados. Sem dar nas vistas, foge de vendedores de cartões de crédito. Quando compra o jornal começa a lê-lo já depois de o ter deixado bem amachucado. Nas lojas não escolhe nada, porque bastou-lhe fazê-lo uma vez. Antes de sair de casa faz uma festa ao gato e depois de bater a porta, ajeita o tapete com o pé direito.

quarta-feira, setembro 16, 2009

MenteQueSentes - Luta

Juro que tenho tentado.
Tentado escrever palavras que me soltem
palavras que me levem até outro momento, que não seja só meu.
Tento e algo resiste.
Algo que por não ser menos belo decidi colocar aqui
em forma de quase nada.
Uma vez li que quando falta de inspiração também se deve escrever.
Por isso descrevo-a pela primeira vez assim.
Quem ainda não a leu neste texto
não espere lê-la, porque tal como a inspiração
tantas vezes dissimulada numa só palavra
a falta dela já se encontra marcada, algures atrás.

domingo, agosto 02, 2009

MenteQueSentes - Terraço dos sonhos

Se te contasse o meu sonho
talvez percebesses
porque tanto atiro a pedra mais longe do que tu
como a deixo cair, tal como a tua, bem perto da margem.
Talvez percebesses
porque tanto te levanto e deixo tocares o tecto da sala
como te mostro o quão longe ele fica de ti.
Talvez percebesses agora
mas não quero.
Prefiro contar-te tudo
quando a minha pedra permanecer seca
e o tecto da sala
for o terraço dos teus sonhos.

domingo, maio 17, 2009

MenteQueSentes - O início no fim da rua

Caminhava tentando pisar todas as pedras da calçada. Quando se cruza comigo uma voz: “O fim da crise só acontece com uma grande guerra ou uma ditadura!”. Apesar do chapéu de chuva ainda lhe vi o rosto, desafinado. E não percebi porque disse aquilo. A chuva caía igual para os dois, as pedras da calçada eram as mesmas, ambos segurávamos um chapéu de chuva, ainda que de Invernos diferentes. Seria pelos diferentes inícios da rua?
Também por aqui e aqui

quinta-feira, março 19, 2009

MenteQueSente - Laços

"Sweet dreams are made of this..."

Uma roupa à nascença
um colo que se preocupa
e que se senta
no chão
outrora um colo
outrora vestido à nascença.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

MenteQueSentes - B.I. Bio

Tenho um bocado de terra
que não sai da minha mão.
Ficou nas rugas
e por mais água que passe
não sai.
Por mais dor que sinta
ao rasparem
ela não sai.
Não sai
e enquanto for assim
não me preocupo
com quem sou.

sábado, fevereiro 14, 2009

MenteQueVives - Ritual do trapézio

Acreditava que para soltar o trapézio, lá em baixo, no meio da multidão, um rosto tinha de a fazer lembrar o primeiro dia que balançou. Tinha de rever o seu sorriso. Rasgado. Iluminado por uns olhos bem abertos e por preencher.
Em noite de espectáculo era sempre assim. A certeza dos aplausos entrava como um pé direito, pelo olhar de alguém ainda com esperança.
Era este imaginário que a deixava soltar um trapézio e agarrar o outro, como se fosse tudo um só gesto.

também aqui

quarta-feira, janeiro 21, 2009

MenteQueVives - Paredes infinitas

À noite deitava-se sempre de barriga para baixo. Tinha as paredes do quarto pintadas com cores dadas por alguém. Um poster atrás da porta que ninguém deu, poucos viram e muitos procuravam. No chão coisas apoiadas em pernas ou também deitadas de barriga para baixo. No tecto a certeza que tudo aquilo era visivel mesmo sem a luz do Sol. E tantas coisas a preencher o resto. Tantas coisas dela, que desistiu da ideia de comprar prateleiras ou armários. E não foi por recear não haverem suficientes, foi porque não queria que aquelas coisas ganhassem pó. Aquelas tantas coisas que quando de noite se deitava de barriga para baixo, voavam pela janela e ajudavam a esticar os sonhos até ao dia seguinte. Até ao momento em que lhe chegava outra cor para pintar mais um pedaço de parede.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

MenteQueVives - Não é Natal enquanto espera

A minha avó a preparar filhós e o Natal à espera!

O frio a acender a lareira, a lareira a apagar outras famílias e o Natal à espera!

As luzes na árvore a piscar, não mais que a televisão e o Natal à espera!

O papel de embrulho a esconder o verdadeiro motivo da prenda e o Natal à espera!

É só mandar mais um e-mail... prometo!

terça-feira, novembro 11, 2008

MenteQueVives - O caminho da voz

Era de noite e a voz caminhava, ora negra ora sedutora. Levava do canto daquela sala, o sentimento de cada rosto. Uma taça de tinto juntava a pele á alma. O avental parava sem o silêncio e rebuscava nas palavras o nome de alguém. Talvez de um cliente. O destino de quem conhecia a voz ficava à distância de um fado. A sala estava cheia. Tão cheia, que o som atropelava vidas que os olhares não conseguiam guardar. E dali a voz caminhava, sobre o relevo de um mapa. Solto e á espera do mar.
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terça-feira, outubro 28, 2008

MenteQueVives - Encantado na contagem

Estava sentado na cadeira da varanda quando me lembrei de tentar contar velhos. Ver quantos velhos passavam na rua em frente à minha varanda.
Não demorou muito a passar um com uma boina nova e de blazer da cor da temperatura. Mancava da perna direita e pelos poucos gestos parecia sereno após anos de dedicação. Talvez em excesso.
Demorou a aparecer outro. Uma senhora. Cabelo estranhamente roxo ou estranhamente branco. Mexia na bolsa. Depois de passar percebi que retirava uma prenda. Pelo embrulho era para uma criança. Uma menina. De certeza que era para uma neta, senão tinha esperado até chegar ao destino para retirar a prenda da bolsa.
De imediato cruzaram-se com esta senhora, dois velhos. Lado a lado mas com destinos diferentes. O do lado da estrada mantinha os olhos fixos em qualquer coisa que naquele momento, nada mais era que não um falso objectivo. O outro olhava o chão, quando de repente levantou o olhar na minha direcção. Nada fiz. Mas pareceu que lhe havia tocado na face e rodado o rosto na direcção do outro velho. Percebi que pensava em alguma decisão em tempos mal tomada. Mal acabam de passar estes, vi que outro havia passado do lado de lá da estrada. Vestia um fato de treino e levava um saco do supermercado. Era dia de jogo. Final da taça. O passo apressado e o volume do saco não enganavam. Iria receber o filho para jantar e os dois iam comandar o jogo do sofá. Talvez o filho já o fosse acompanhar no pessimismo, sem que por isso o número de pulsações fosse menor do que em outros tempos.
Ainda tentava perceber se era o filho que se aproximava do velho quando ouvi chamarem-me para jantar. Percebi que não sabia contar... pessoas.

domingo, outubro 12, 2008

MenteQueVives - Branco sensível

A coluna já estava branca. Mas era a sua missão branquea-la ainda mais.
Um escadote, um rolo, um balde de tinta, um carro de supermercado e um par de óculos. Pessoas corriam de um lado para o outro, com malas a estender as suas personalidades. Não viam o artista. Viam uma coluna branca. Já de si branca.
Ele pintava, tocava com o rolo da tinta, pensava na hora de jantar e pintava.
Houve um homem na mesa do café que finalmente reparou no artista. Perguntou-lhe porque pintava de branco uma coluna já de si branca. O artista respondeu que estava a aplicar uma segunda demão e pensou na hora do jantar.
O homem do café já em sua casa, sozinho, foi rever a foto de fim de curso.

domingo, setembro 21, 2008

MenteQueVives - A tabuleta

Uma tabuleta tentava cirandar por cima da porta dos correiros. Presa a duas correntes, paralelas em tudo, aguentava o vento e o sol, a ânsia e o alívio, os passos e os silêncios. Tentava cirandar porque não tinha para onde ir. Tentava cirandar por queria dizer algo.
As letras que lhe calharam concordavam e pareciam querer dizer mais alguma coisa. Não cheguei a concluir.
Entrei. Saí.
Retive-me um pouco do outro lado da estrada, a ver a tabuleta tentar cirandar.
Segurei a carta com a outra mão que não aquela que a apertava quando entrei. Não enviei a carta.
A tabuleta tocou uma melodia com o riso das correntes. Pareceu-me.
Não enviei a carta e suavemente fui desligando a tabuleta. Pensando onde poderia ir eu, agora sim, cirandar.

quinta-feira, setembro 11, 2008

MenteQueVives - O caminho dos golfinhos

Gente, muita gente. A água a reflectir tudo, no brilho, na cor, na expectiva.
Gente, muita gente. E o brilho e a cor da água foram subitamente misturados. Desapareceu a expectaviva. E daquela gente, muita gente, sairam sonhos e viagens.
Os golfinhos não eram muitos, mas tocaram em cada coração daquela gente, muita gente. Sem ninguém esperar vez para que isso acontecesse.
Excepto duas meninas, que não esperaram sequer que fossem os golfinhos a tocar-lhes no coração. Sopraram os seus corações para eles. E a partir daquele momento, já não havia gente, muita gente. Sairam todos. Ficaram apenas as duas meninas, que recolhiam no colo, a água límpida que saltava do caminho dos golfinhos.
Vi uma das meninas misturar lágrimas dos seus dias felizes com aquela água. A outra guardava-a. Para soltá-la quando também soubesse o que é sorrir, com um coração cheio de dias felizes.

MenteQueVes - Procurar o nosso dia


domingo, agosto 17, 2008

MenteQueVives - O carrinho que escolhemos

O puto queria descer a rampa com o carrinho que recebeu este ano. Queria descer tal como tinha feito o ano passado, com o outro carrinho. Desta vez chovia, a erva ao meio era mais pequena, uma das casas tinha uma cor diferente, as pernas dele eram maiores.
Estava decidido, mais até que no ano passado. Apesar de ser a primeira vez que ia descer com aquele carrinho.
O fundo da rampa estava na mesma. Pequeno visto de cima, infinito quando se pisava. Com a confiança de quem evolui, deixou de tocar o chão com o pé e sentiu as costas aumentar. A meio da rampa já não se lembrava do carrinho do ano passado. E foi já parado com sucesso, que voltou a pensar nele, quando sentiu as feridas que tinha nos joelhos.
Porém demorou a perceber, que tinha escolhido o carrinho deste ano, ainda no ano passado.

terça-feira, agosto 05, 2008

MenteQueVives - Desejo tatuado

Não era proibido atirar pensamentos mar adentro. Podia-se sentar e pôr os pés em cima das rochas. Não havia problema em tirar do sítio as areias. Era permitido alimentar o animal que andava à solta dentro dela.
Para não ser reconhecida como adulta bastava-lhe tocar o céu, sempre que uma voz a chamava de uma velha janela destorcida.
Esperava que uma estrela cadente sorrisse ao som dessa voz, para poder tatuar o desejo na manhã seguinte.

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terça-feira, julho 08, 2008

MenteQueSentes - Primeiro brilho

Foi recolhida uma estrela.

Recebeu o brilho que lhe faltava

e não quer voltar a subir.

Não quer perder o céu que encontrou

numa história em que o Sol

anda de mão em mão.

segunda-feira, junho 30, 2008

MenteQueVives - Casa torta

Era a casa mais torta que alguma vez vi. Tinha tinta de um amarelo trocado, janelas e portas com esquadria só de manhã. Por cima o telhado queimado, a lembrar uma camisa por passar. Por baixo o chão que só se endireitava ao longe.
Em volta o jardim ria de tudo aquilo e acenava a cada pessoa que passava. Em especial uma flôr esbranquiçada que nessas alturas fingia até ter raiz na terra do vizinho.
Era a casa mais torta que alguma vez vi, mas pior era não reconhecer sequer uma casa, em pedaços de gente que se fizeram por ali.

terça-feira, junho 24, 2008

MenteQueSentes - ...o livro que eu não li

Anda por aí um livro
não tem nome
mas tem cheiro
e na página seguinte
tem sempre um rosto
que no fim
recolhe a história
e olha para mim.

segunda-feira, junho 16, 2008

MenteQueSentes - O nosso jogo

Quero jogar à bola
mas com vocês
que a bola não sorri
quando a chuto
entre um molho de pernas
que no final
não me vão ajudar
a levantar a taça
que ganhávamos
antes de cada jogo.

sábado, maio 17, 2008

MenteQueSentes - Idade dos muros

Acho melhor abrir uma folha em branco, poisar a tua fotografia na crosta que hoje me chateia. E esperar que no imediato haja sangue ansioso por celebrar dentro de mim, o facto de escrever numa folha A4 sem titulo e sem margens, sem furos e sem agrafos. Uma folha A4, eu, tu e uma névoa a encaminhar-nos para a idade dos muros.

domingo, maio 11, 2008

MenteQueVives - Vício interior

Pela maneira com que não olhava as coisas dava a entender que queria sempre chegar cedo. Não ligou aos jornais, aos poucos ignorou a televisão. Houve momentos que nem parecia estar com roupa.
E pela maneira com que olhava as pessoas dava a entender que queria sair tarde. Conversou, riu-se e sentou-se perto de alguém, e de outro alguém e de outro alguém e de outros. Durante as palavras triunfantes, tocava no ouvinte. Como uma pedra no charco, questionava se a bebida era do agrado do falante.
Tudo se tornou para mim claro, quando nos cruzámos na casa de banho. Vi-o ignorar o espelho e olhar o seu rosto. Olhava fixamente os seus próprios olhos. Que droga tomaria para ser tão viciado no que interessa aos outros, sem que os outros percebessem o interesse que tinha, naquilo que só interessava a ele?

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sexta-feira, abril 25, 2008

MenteQueVives - Lembrança que não fica na parede

O calendário dava motivo de conversa e na mesa a comida dava o sotaque que o vinho ajudava a desembaraçar. Nas paredes escorriam lembranças por relevos de sempre, sem contornarem os adereços de ocasião.
Ela escusava de se mexer para encontrar o ritmo da dança que todos guardavam, mas ninguém ouvia. Em cada fim da mesa, haviam vidas que valiam a pena contar antes de serem engolidas, tal como a mousse de chocolate, enfeitada para o momento.
Houve movimentos normais de uma refeição, mas houve outros que me levaram a uma varanda perto do mar, longe de mim.
Ela sorriu para o empregado que atordoado já não servia, limitava-se a ser parte do sorriso. No momento em que a primeira cadeira começou a arrefecer sem retorno, outras seguiram o processo. Ela não saiu e hoje a lembrança também escorre nos meus dias.

Miguel Alves

sexta-feira, abril 04, 2008

MenteQueSentes - Flôr da confiança

A Flôr sorri
porque sabe que de tarde
vai brilhar com o Sol
sem perder
a protecção da Montanha.

Miguel Alves

sábado, março 08, 2008

MenteQueSentes - A fé dos homens

Um homem constrói uma catedral

e alimenta a sua esperança

com aquilo que não projectou.

Outro constrói um barco

e navega nas àguas

que não encontra perto de casa.



Miguel Alves

quinta-feira, março 06, 2008

MenteQueSentes - Aniversário de um anjo

Hoje é o aniversário de um anjo. Não há prenda nem festa, não há bolo nem velas. Os anjos não precisam de nada disso. Os anjos, como este que hoje faz anos, só querem saber quantas vezes sorrimos. Mesmo hoje em que o sorriso dele é a fonte do próprio dia.

Miguel Alves

terça-feira, março 04, 2008

MenteQueVives - Terreno sem emprego

Podia naquele momento cair no meio da sala o anúncio de um país novo, sem governantes, sem povo, sem ideais nem superstições religiosas, um terreno no meio de outros terrenos, países velhos, com governantes, com povos, com ideais e superstições religiosas. Pelos olhares daquelas pessoas eu podia pôr as mãos no fogo, ainda que de um fósforo, que elas, todas juntas, iriam conseguir construir uma superpotência mundial.
Enquanto o fósforo ardesse eu iria acreditar naqueles olhares a espreitarem oportunidades por ordem alfabética e requisitos por ordem abstracta. Eu iria acreditar que todos iriam saber construir um império, pedra sobre pedra, rua a rua, cidade a cidade e até ao último metro de fronteira, tudo iria fazer sentido. Assim eu via naquelas caras todo esse empreendorismo acumulado.Pensava eu no nome que poderia ter esse país, quando olho a minha senha e reconheço os números que uma voz desumana havia moldado segundos antes. Porque eu quando ali entrei só pensava no fim do expediente da próxima sexta-feira, rapidamente me foi dado o que queria.
Assim que deixei a porta daquela sala, o fósforo apagou-se. Mas a vontade de procurar um pouco de terreno esquecido, reacendeu-se em mim.
Miguel Alves
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sábado, fevereiro 16, 2008

MenteQueVives - À solta

Instrumentos a postos, corpo e alma a envolverem-se como um cocktail. Os olhos procuram as notas musicais perdidas no penteado do dragão de mil cabeças. Luzes, acção. Deixam de haver indivíduos, deixa de haver privacidade, deixa de haver amanhã, deixa de haver vocabulário, deixa de haver hesitação, deixa de haver uma ou outra lei. Um ciclone de som mistura tudo. Acelera, abranda, mantém o ritmo preso a cada coração. A luz assiste e diz que sim a tudo. Acena que sim tantas vezes que deixa de ter personalidade e mal se dá por ela. Três, dois, um. A hora não estava marcada mas o regresso sim. As portas dão lugar a braços. Braços imensos que empurram mas sorriem, cumplices.
Num outro momento tudo será lembrado, ainda que a repetição só seja possivel no sangue que cada um gravou.

Miguel Alves

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

MenteQueSentes - Nuvem

Enquanto dormias, eu era a nuvem que voava nos teus sonhos.
Quanto mais alto voava, mais queria ser a almofada do teu acordar.

Rita & Miguel

terça-feira, janeiro 22, 2008

MenteQueSentes - Crescente

Ri por um
Enquanto te vestes por dois
Manda cartas para três
Fá-las passar por quatro
Surpreende cinco vezes
Imagina seis reacções
Conta sete ondas
Fotografa oito marés
Olha para o relógio às nove
Abraça-te como se não existissem as dez.

Miguel Alves

sexta-feira, janeiro 11, 2008

MenteQueSentes - Partilha

O teu sorriso lindo
a certeza com que trabalho as palavras
e preparo a tua reacção
e o branco
que dividimos ao meio
uma metade para as tuas serpentinas
a outra para os meus espelhos.

Miguel Alves

sexta-feira, janeiro 04, 2008

MenteQueVives - Jardim caído

O jardim estava caído dentro da cidade. Nunca tinha saído daquele sítio, nunca tinha muito menos subido para espreitar o topo dos prédios, nunca tinha sido um qualquer gesto. Mas estava agora caído, e tudo nele estava caído também. As flores que em invernos como este não eram flores mas pelo menos sussurravam ao vento a vontade de o serem, os caminhos que tinham vários fins e que agora restavam-lhes o mesmo ínicio, os candeeiros que diminuiam a electricidade com o glamour das suas formas e que agora tinham nela o único motivo para lá estarem, o portão que tantas vezes viu prevenida a ferrugem já não sabia passar sem esta, sem a cumplicidade de quem chega sem anunciar, deixando-nos depois a vontade de não pensar num anúncio de despedida.
Hoje vi assim o meu jardim. Caído. Amanhã talvez esteja levantado, ou até hoje mesmo, mas por outros olhos.

Miguel Alves

quinta-feira, dezembro 20, 2007

MenteQueVives - Língua de fora

Pôs a língua de fora e correu.
Melhor, limpou a alma do pai com olhos da cor do mundo, ajeitou a roupa torcida, torcendo-a ela. Perguntou ao pai que horas marcava o seu relógio enrugado, ele respondeu que na hora seguinte os espelhos já só lhe iriam afagar o rosto. Ela percebeu e deu dois pinotes. As areias debaixo dos seus sapatos quiseram naquele instante ser as fachadas que nos guardavam da vida de adulto. No fundo só queriam deixar de ser o som da criancice.
No momento em que me viu, pôs então a língua de fora e correu.
O pai continuou a ser pai no sorriso que me atirou. Eu continuei parado, sem saber o limite daquilo que guardei.

Miguel Alves

domingo, dezembro 16, 2007

MenteQueVives - Silhueta

Sentado, corcovado, calvo, a sua silhueta quebrava a claridade da janela e escoava-a para dentro da caneta, diluia-a na tinta e escondia-a no papel. Quando passei, eu de lado, ele de lado, não percebi logo o que fazia.
Não reconheci as noites em branco que me abraçavam de dia, os dedos subornados que me aqueciam sempre no mesmo lugar de Inverno ou até mesmo os meus dias inteiros a sublinhar o seu destino.
Nas páginas e páginas que saltitavam naquela secretária havia um homem sentado, corcovado, calvo, cuja silhueta de tanto gritar por mim, acabou no meu peito aconchegada pela origem do meu fôlego.

Miguel Alves

quarta-feira, dezembro 05, 2007

MenteQueVives - A casa dele

Na casa dele cabiam cabides para casacos dos outros, haviam luzes que economizavam solidão, sabia-se o tempo pelo movimento nas paredes.
No dia que deixei de o conhecer pela boca larga de um jornalista, emagreci o desconhecimento que julgava ter dele e junto à portada, ainda junto à portada, sorrimos. Talvez pela diferença de idades comum mas diferente, talvez pela guitarra portuguesa a lembrar anos verdes, talvez pela cumplicidade da sombra de uma oliveira, naquele momento tanto dele como minha. Com o cheiro a café misturado no açucar da sua conversa, num alpendre interior à sua alma, exterior à casa, conheci uma multidão.
Quando mostrei a minha felicidade já regressava sozinho a outra casa, que também seria dele.
Miguel Alves

terça-feira, novembro 27, 2007

MenteQueSentes - Parábolas

Muitas são as parábolas
que quem não vê não ignora
tantas são as formas
que o mundo tem.

Miguel Alves

segunda-feira, novembro 26, 2007

MenteQueSentes - Procuro livro

Procuro livro com 2,4 cm de espessura, capa dura e sem letras em relevo. O objectivo é nivelar uma mesa de cabeceira e será uma situação temporária, tenciono comprar uma nova. Por isso não uso calços em madeira porque com o livro sempre posso dar-lhe outra utilização, como por exemplo lê-lo. Já agora prefiro evitar biografias por eventuais efeitos secundários na pessoa em questão, livros de viagens por eventuais problemas diplomáticos e livros religiosos porque pode pesar-me na consciência o dobro do que pesa a mesinha de cabeceira. Fico a aguardar sugestões, até lá vou continuar a pousar o copo de água no chão. Para quem tenha ficado curioso, a mesinha de cabeceira ficou manca por ter usado o bocado da perna para servir de suporte no meio de uns livros, numa estante que não é minha.

Miguel Alves

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terça-feira, novembro 20, 2007

MenteQueVives - Partilha da liberdade

Fechou o estaminé. Caminhou livre o tempo que pôde, as crianças em casa logo logo diriam quanto.
O cabelo fechava cada passo como a batida lógica de um coração. Sonhou não ser livre naquele momento. Olhou o chão pintado pelos seus próprios pés e imaginou ter as mãos ocupadas com as outras mãos que um dia encontrou dentro de si.
A luz do dia era cada vez menor mas o espaço ocupado pelo mapa era ainda mais rápido a desaparecer.
Mal perdeu a liberdade deu um tiro no pé e tratou de agravar a pena com alguns excessos que trazia no bolso. Não foi o suficiente nem para compensar o tempo que esteve livre nem para merecer a prisão daqueles braços. Mas na verdade, no momento em que naquele mesmo dia gastou o mapa, já a liberdade estava a ser oferecida a quem ainda achava estar apenas a partilhá-la.

Miguel Alves

sexta-feira, novembro 02, 2007

MenteQueVives - Canto do mundo

Luz que parecia música ou música que parecia luz? Nos corredores, nas bilheteiras, nos balcões, atrás da cortina, em cima do palco, atrás da máquina do algodão doce, de canto em canto recebiam-se a música e a luz sem que fosse possível imaginar uma sem a outra. A nobre distinção de as acolher, recomendava, pelo menos naquele teatro, que ambas se confundissem como a ansiedade e o desejo, o dinheiro e o alívio, os olhos e a imaginação, as mãos e a corda, as tábuas e as sabrinas, o açucar e o corante.
Para garantir a união havia corpos que bailavam como searas debaixo do luar, corpos que mantinham o peso morto da consciência longe daquele teatro e soltavam do palco, do canto do mundo, a leveza das suas massas como se fossem feixes de uma luz que não cabia dentro da orquestra.

Miguel Alves

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